O Mundo Proibido da Tchecoslováquia

De 26 de setembro a 13 de outubro, ocorreu na Cinemateca Capitólio a mostra de cinema que reuniu filmes produzidos nas cidades de Praga e Bratislava. Conhecidos como “filmes do cofre”, as obras foram banidas do país após a invasão soviética no ano de 1968.

Com entrada franca em todas as sessões, a programação contou com clássicos consagrados e raridades inéditas no Brasil.

A Nova Onda do Cinema Checoslovaco, como ficou conhecido o período,  surgiu na década de 1960, com uma geração de diretores inovadores que rapidamente atraíram os olhares do mundo. 

Entre eles os cineastas Vera Chytilová, diretora do clássico cult As Pequenas Margaridas (1966), e Miloš Forman, premiado diretor que emigrou para os Estados Unidos em virtude da censura e perseguição, onde dirigiu Um Estranho no Ninho (1975) pelo qual ganhou 5 Oscars, além de vários outros grandes trabalhos e prêmios pelo mundo. 

A mostra na Cinemateca Capitólio começou apresentando justamente  um filme de Miloš Forman, O Baile dos Bombeiros (1967), onde o Corpo de Bombeiros de uma pequena cidade realiza uma grande festa em celebração ao aniversário de um antigo chefe do departamento. Mas uma série de acontecimentos inesperados impede que o evento seja considerado um sucesso.

O filme foi banido um ano após o seu lançamento, e também foi o último feito por Forman no seu país antes de emigrar para os Estados Unidos.

A programação seguiu com a exibição de 322 (1969), considerado pela crítica especializada o maior filme eslovaco de todos os tempos, dirigido pelo diretor Dušan Hanák. 

O número no nome do filme representa um tipo de câncer que o protagonista é diagnosticado, ele entende sua doença como uma forma de punição por seus atos cruéis do passado, e busca encontrar sua própria reconciliação perante o câncer, analisando sua vida passada e presente. 

Durante os dias sequentes da mostra eu consegui acompanhar algumas sessões, todos os filmes de grande qualidade.

O Cremador (1969)

Dirigido por Juraj Herz, e protagonizado por Rudolf Hrušínský, que é considerado o maior ator do cinema tcheco.

O filme conta a história da Tchecoslováquia sob ameaça de invasão da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Um homem administrador do crematório da cidade se contamina pela ideologia nazista e começa a enlouquecer e tomar atitudes inconcebíveis. 

Atualmente o filme consta na posição 194 da lista Top 250 melhores filmes do site Letterboxd.

Leonardo Bomfim apresentando o filme O Cremador, numa sessão que ficou praticamente lotada na Cinemateca Capitólio. Foto: Alisson Santos.

O Martelo das Bruxas (1970)

Baseado em registros históricos dos julgamentos de “bruxas” numa cidade tcheca entre 1678 e 1695. 

Dirigido por Otakar Vávra, o filme documenta a espiral de paranoia que o clero e a burguesia da cidade entram a partir do roubo de uma hóstia.  É um filme que mexe com o espectador e desperta indignação pelos acontecimentos interpretados tão bem durante a produção. 

Mesmo com a influência do diretor Vávra, um mestre do cinema tchecoslovaco e respeitado acadêmico, o filme foi tirado de circulação logo após sua estreia comercial. O Martelo das Bruxas consta na posição 6 do ranking de melhores filmes tchecos de todos os tempos.

Órgão (1964)

História de um jovem desertor do exército polonês que tenta se disfarçar de monge para procurar abrigo em um monastério na Tchecoslováquia. Mais um filme tendo a Segunda Guerra como pano de fundo, mostrando o medo e apreensão da população civil perante a invasão da Alemanha Nazista.

O protagonista é um organista talentoso que acaba ocupando a vaga do antigo organista da igreja local, o que gera conflitos e desconfiança sobre o jovem soldado polonês no filme.

O Sétimo Dia, A Oitava Noite (1969)

Uma alegoria sobre histeria coletiva e delírio. O filme mostra o decorrer de 24 horas em um vilarejo tcheco, onde um grupo de teatro viajante chega e acaba causando desconfiança e pânico na população.

Uma série de eventos pequenos, começando com a aparição de vagões de trens vazios, e o sumiço do chefe da estação, acaba gerando uma série de desentendimentos que levam a cidade à loucura.

O espectador pode lembrar de filmes como A Vila (2004) e Bacurau (2019). 

Durante o evento conheci Eric Pedott, única pessoa que assistiu todos os filmes da mostra no Capitólio, ele me deu um relato sobre sua experiência e como despertou o gosto pelo cinema tcheco.

Meu interesse pelo cinema tcheco começou em 2014, através da mostra O Outro Lado da Europa: Nouvelle Vague Tcheca, que aconteceu na sala P.F. Gastal. A mostra exibiu filmes em 35mm, vindos diretamente da República Tcheca, o que me fez imaginar que era como uma espécie de tour de filmes. Foi nessa ocasião que, pela primeira vez, assisti a filmes como Pequenas Margaridas, Fruto do Paraíso, Pedro o Negro, O Cremador, A Festa e os Convidados, Trens Estreitamente Vigiados, entre outros. Se não me engano, acabei assistindo quase todos os filmes apresentados na mostra.

Na época tinha achado os filmes diferentes de tudo que eu já tinha assistido. A técnica utilizada, as montagens cheias de cores e colagens, além do fato de estar vendo tudo em película, acabei ficando fascinado. Tendo a experiência de assistir filmes em 35mm, com aquele som característico do rolo de filme, as imagens pareciam saltar da tela.

Acredito que foi a partir dessa mostra que começou o meu interesse por países do Leste Europeu e suas experiências enquanto países socialistas. Essas experiências, que destoavam da União Soviética, me levaram a querer saber mais sobre o que esses países produziam culturalmente. Desde então, tive a oportunidade de assistir a outras mostras com essa temática, como a Mostra de Cinema Eslovaco na sala P.F. Gastal em 2016, e posteriormente, em 2022 e 2023, na Cinemateca Capitólio. Agora, em 2024, a mostra focou em filmes mais obscuros, que foram censurados durante a primavera de Praga, por parte da União Soviética. Que acabou por sufocar o clamor popular de um socialismo independente por parte dos Tchecoslovacos. 

Durante essa última mostra, acabei por assistir todos os 25 filmes, incluindo alguns inéditos e outros que eu ainda não tinha visto. Um dos filmes que me marcou mais foi A Piada, que faz uma crítica contundente ao Partido Comunista da época e ao seu engessamento ideológico.

Sobre o filme

O filme, A Piada, se dá através de uma má interpretação de uma carta enviada pelo protagonista, que diz a seguinte frase “O otimismo é o ópio do povo”, uma paródia de uma frase de Karl Marx, a frase acaba sendo má interpretada por seus colegas de partido. Eles indagam que o protagonista não é merecedor da realidade em que vive, uma realidade fruto da libertação da Tchecoslováquia pelos soviéticos e partisans na luta contra o regime nazista. Como punição, ele é enviado para um campo de trabalhos forçados.

Nesse campo, conhecemos um personagem interessante, um colega do protagonista que se define como “um comunista de verdade”. Ele questiona, através de uma carta que é enviada para o partido, questiona a forma desumana em que eles são conduzidos no campo. Ele acusa o carrasco, que é responsável pelas ordens, de ser um contrarevolucionário, um “direitoso”, alguém que faz com que eles tomem ainda mais desgosto pelo partido. Como resposta, o carrasco lê a carta na frente deles e dá uma punição ao autor.

No dia seguinte, o autor da carta, acaba por tirar a própria vida, tomando um frasco de veneno. Esse ato simboliza a luta do verdadeiro valor de um ideal comunista, desse socialismo que os Tchecoslovacos almejavam, contrário ao comunismo imposto pela União Soviética. Isso permeia também o protagonista, que por mais tenha sido amargurado por essa má experiência, no final do filme ainda demonstra ter um amor por seu país.

As Pequenas Margaridas (1966) de Vera Chytilova, foi o filme que encerrou a programação, no domingo (13/10), numa sessão lotada. Ao final da exibição, foi realizado um debate organizado pelo Cineclube de Porto Alegre, ministrado por Nica Maleoa.

Eric Pedott foi chamado a frente do público antes do debate começar. E foi homenageado pela organização da mostra ganhando uma ecobag personalizada do evento, com foto das protagonistas do filme As Pequenas Margaridas.

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Meu nome é Alisson Santos. Sou natural de Porto Alegre (RS) e nasci em 1996. Jornalista buscando se especializar em críticas de cinema. Neste blog, realizo coberturas de forma independente e compartilho conteúdo informativo sobre filmes, incluindo críticas, entrevistas, cobertura de eventos e outros destaques e informações sobre cinema.

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