Solidão da mulher negra, racismo, luta de classe e até um drama de tribunal são temas que ligam as três histórias do novo filme de Renato Cândido e Bárbara Magalhanis.

Na trama de Menina Mulher da Pele Preta Parte 2 , mulheres negras em diferentes contextos geracionais e sociais enfrentam situações da vida e o racismo estrutural perpetuado por gerações no Brasil.

Em conversa com o diretor Renato Cândido, ele me informou que a experiência não foi agradável em relação à luta para angariar recursos. Ninguém queria oferecer grandes somas de dinheiro para uma pessoa preta produzir cultura. 

Isto fez Menina Mulher da Pele Preta Parte 2 ir sendo montado a partir de médias-metragens. Renato vinha pleiteando recursos desde 2008. 

Larissa é a primeira protagonista, interpretada por Aysha Nascimento, uma mulher bem sucedida do ramo de negócios, diretora-presidente de uma empresa, mas que precisa frequentemente se impor para mostrar sua posição como chefe. Ela precisará lidar no dia de seu aniversário, com a volta de um amor do passado pelo qual ainda guarda mágoa.

No segundo ato, acompanhamos a história de uma família negra de São Paulo, que está sendo praticamente expulsa da sua casa, devido à gentrificação. Vemos tudo pela percepção de Janaína, interpretada por Lílian Rocha, uma das filhas adolescentes da família.

Janaína parece estar habituada ao ambiente hostil que enfrenta nas ruas, em um Brasil no período da ditadura, sofrendo racismo explícito da própria polícia militar e a violência frequente contra sua família, que além do racismo, também sofre preconceito por serem sambistas. 

Na última história, vemos Deolinda, a irmã mais velha de Janaína, em duas fases de sua vida, num período subsequente à mudança da família, enquanto ela continua na faculdade, intercalando com momentos de muitos anos à frente, quando ela já é juíza.

Deolinda é a personagem mais interessante do filme, com atitudes discutíveis e uma presença muito forte. É interpretada muito bem tanto por Niz Souza, que faz a fase mais velha, quanto por Ana Vitória Mbengue na fase jovem, que merece elogios por ter um monólogo incrível na parte final. 

Menina Mulher da Pele Preta Parte 2 é um filme que mostra a dificuldade de ser uma mulher negra na sociedade brasileira, independentemente de sua classe social. Todas as personagens passam por inconveniências, mas não se calam perante a situação.

Tecnicamente, o primeiro ato é inferior aos demais, não tem a mesma força na narrativa que a história das irmãs Janaína e Deolinda. Além disso, a câmera na mão em boa parte do filme treme muito, o que às vezes causa incômodo na tela.


Apesar disso, o filme é bem produzido e atuado por todas as suas atrizes, e tem um final emocionante ao som de “Filha Diga o Que Vê” do cantor de MPB Mateus Aleluia. Menina Mulher da Pele Preta Parte 2 merece destaque por sua narrativa relevante e extremamente atual para nossa sociedade.

Menina Mulher da Pele Preta Parte 2 foi premiado com o Troféu Odilon Lopez de melhor filme, pelo júri técnico e júri popular, no V Festival Cinema Negro em Ação, que aconteceu de 17 a 20 de outubro de 2024, na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre.

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Meu nome é Alisson Santos, natural de Porto Alegre (RS). Sou jornalista em busca de especialização em crítica de cinema. Neste blog, realizo coberturas de forma independente e compartilho conteúdo informativo sobre filmes, incluindo críticas, entrevistas, cobertura de eventos e outros destaques e informações sobre o universo cinematográfico.

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