Renato Candido de Lima é Mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP e Doutor em Meios e Processos Audiovisuais, cineasta e pesquisador. Está no ramo audiovisual desde que ingressou na faculdade de cinema na USP, em 2002.

Além disso, Renato também é professor de documentário, roteiro, direção e diversas outras áreas do cinema.

Em seu trabalho, sempre preza por trazer personagens humanizados, suas produções audiovisuais se fundamentam no recorte racial e no entendimento das relações raciais no Brasil.

Nesta entrevista, conversamos sobre seu projeto Menina Mulher da Pele Preta, composto por dois longas-metragens com histórias ficcionais de mulheres negras.

Menina Mulher da Pele Preta parte 2, foi premiado dia 20 de outubro no 5º Festival Cinema Negro em Ação, escolhido melhor filme da mostra competitiva pelo júri técnico e júri popular.

Leia a seguir a íntegra da entrevista:

Quais foram suas inspirações para criar as histórias das personagens de Menina Mulher da Pele Preta parte 1 e 2?

Renato Candido: Eu já tinha escrito as histórias Larissa S/A e Jennifer lá pelos anos de 2007. Quando entrei no mestrado na ECA/USP, eu já estava em contato com muitas pessoas bacanas vinculadas à cultura periférica, como, por exemplo, as escritoras Elizandra Souza e a Ana Paula dos Santos Risos.

Inspirado nos contos de Elizandra e de Ana, eu escrevi os roteiros Dara e Simone. Inspirados porque as histórias são bem diferentes nos contos. E em Dara, eu trabalhei vários aspectos da trajetória da minha mãe, que é retirante de Bom Conselho/PE.

Escrevi os roteiros de Dara e Simone. Daí eu imaginei uma série ou longa episódica com 5 histórias de 5 protagonistas negras. Foi nesse contexto que escrevi Deolinda, que era a história de fechamento. Uma juíza negra que julga uma ré negra.

Assim, eu acredito que aquilo que se formou enquanto projeto Menina Mulher da Pele Preta, teve uma leve inspiração nos filmes e série do Krzysztof Kieślowski. Algo como o Decálogo, só que nas nossas bases afro diaspóricas, evidentemente. Obras do Kieślowski são lacunares, envolvendo poéticas melancólicas na imagem e não pagando tributo a um cinema coeso/coerente nas narrativas recorrentes da indústria cultural. 

Em 2014, quando começou o buxixo das obras da linha 6 eu imaginei o quanto se iria encontrar vestígios da região do Quilombo Saracura. Daí, pensando na especulação imobiliária dos anos 70 em tempos de ditadura, imaginei a história de Janaína, que era infantil a princípio e não tinha a história romântica com o Elton, evidentemente. Depois eu resolvi envelhecer a personagem e trazer a Dara e Deolinda em outras fases da vida para a história de Janaína. 

Daí virou o projeto que vemos hoje. Menina Mulher da Pele Preta. Pode ser tanto um seriado quanto dois filmes de longa-metragem de 70min e 110min respectivamente.

Como foi a experiência de dirigir os dois filmes?

Renato Candido: Na verdade, dirigi 6 médias metragens. A experiência não foi agradável em relação à luta para angariar recursos. Ninguém quer oferecer grandes somas de dinheiro para uma pessoa preta produzir cultura. Quer, sim, ser dona da marca da diversidade para vender produtos na indústria cultural. Desde 2008 venho pleiteando recursos.

Se eu fosse branco como colegas que estudaram comigo na ECA/USP, com certeza eu teria já estourado enquanto cineasta já há muito tempo. Mas estamos intrinsecamente todos ligados à estrutura do racismo. E ela faz sentido nas relações econômicas e de poder.

Dirigir em si os filmes é sempre ótimo e agradável. Sempre batalho para criar sets de filmagem que sejam agradáveis e pedagógicos. Fujo de sets tóxicos. Talvez por isso a branquitude não me chame para filmes e outras produções.

Como é ver agora os dois filmes finalizados após um projeto de 14 anos?

Renato Candido: Eu poderia ter feito esses filmes ainda em 2014 quando eu tinha todas as histórias. Não me apego a essa questão de que foi melhor depois, porque você naturaliza que o preto não deve ter chance. Tudo na minha vida eu insisti muito, mas não deve ser assim as coisas.

Conhecimento e ação podem vir de maneira tranquila e generosa. Não se pode romantizar a noção que sofrimento traz sabedoria.

Os filmes são bonitos e agora a questão é deles serem vistos por muita gente. Estou considerando abrí-los no youtube para que as pessoas os utilizem principalmente em sala de aula. Fazer como Sérgio Vaz faz visitando escolas com seus livros e poesias. No meu caso, seriam os filmes.

De onde veio a inspiração para o título? Tem a ver com a música de Jorge Ben Jor?

Renato Candido: Tem e não tem. O filme não se relaciona com a música do Jorge Ben. Creio que a relação seja apenas retórica. Que nem João Jardim fez em sua obra “Pro dia nascer feliz”, que em nada tem a ver com a música do Barão Vermelho.

Até porque o filme não sensualiza ninguém nas histórias. A música sim.

Como foi para você receber o prêmio de melhor filme da mostra competitiva do Festival Cinema Negro em Ação, pelo júri técnico e júri popular?

Renato Candido: A ideia que temos de Porto Alegre é um território inimigo para a negritude. De gente essencialmente racista e que nem se dói por ter essa atitude apegando-se a um deus colonial para validar sua paz nas atrocidades racistas cotidianas. Infelizmente era a minha visão de Porto Alegre, da Serra Gaúcha e do Sudoeste Gaúcho. Tirando Pelotas e Rio Grande, que tem uma população negra percentualmente maior.

Mas me surpreendi em 2023 quando exibi no Cine Bancários o meu primeiro longa, o documentário “Diga o que quiser! Eu vou ser feliz à beça!”. Eu fiquei na cidade e a ideia que tinha de porto-alegrenses racistas diminuiu muito. Entendi que em volta da cidade, existem quilombos e aldeias. Mas a desigualdade também é essencialmente racial como aqui.

Desta forma, foi muito simbólico os primeiros prêmios virem de Porto Alegre, ou seja, um ato de reconhecimento e de carinho de onde eu não esperava e que isso faz com que eu reflita sobre meus preconceitos sobre o espírito progressista e talvez até antirracista do povo de Porto Alegre.

Que conselho você dá aos jovens negros que tem o sonho de seguir carreira no mercado audiovisual?

Renato Candido: É importante a gente não se render a uma narrativa única da indústria cultural.

É importante a gente sempre lutar por políticas culturais.

É importante sempre refletir que cultura também reflete na economia do dia-a-dia. Que é um direito nosso poder viver dignamente com produção cultural.

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Meu nome é Alisson Santos. Sou natural de Porto Alegre (RS) e nasci em 1996. Jornalista buscando se especializar em críticas de cinema. Neste blog, realizo coberturas de forma independente e compartilho conteúdo informativo sobre filmes, incluindo críticas, entrevistas, cobertura de eventos e outros destaques e informações sobre cinema.

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