Debate na UniRitter contou com a participação de cineastas experientes no audiovisual gaúcho

A 1ª Semana Acadêmica de Comunicação, Arquitetura e Design da UniRitter, ocorrida de 28 de outubro a 1 de novembro, teve diversas atividades voltadas para a comunicação e audiovisual, no campus Fapa e campus Zona Sul. Trazendo profissionais renomados de ambas as áreas para debater temas e inspirar os alunos que logo entrarão no mercado de trabalho.

Na quarta-feira (30/10), foram recebidos no estúdio de vídeo do campus Fapa, profissionais do Ecossistema Coletivo Audiovisual RS, que vieram apresentar seu projeto e participar de um importante debate: “As ideias e o futuro do mercado audiovisual no Rio Grande do Sul”, mediado pelo professor Emiliano Cunha.

O Ecossistema Coletivo Audiovisual RS surgiu a partir da Lei Paulo Gustavo, e foi publicado com outros contemplados através do edital nº 13/2023, em 16 de janeiro de 2024, pela Secretaria de Cultura do Rio Grande do Sul (Sedac). O projeto vem para fomentar o mercado audiovisual no estado.

O coordenador geral do ecossistema é Edu Rabin, o produtor é Giovani Borba e o produtor executivo é João Fernando Chagas, ao longo desta matéria falaremos mais sobre cada um e suas visões sobre o mercado audiovisual atualmente. 

A ideia do ecossistema é unir empresas do mercado audiovisual para cobrir espaços de diferentes áreas, fazendo assim, uma interligação de serviços entre empresas do setor no Rio Grande do Sul. Também trazendo oportunidades para recém-formados ganharem experiência e emprego. 

Edu Rabin começa explicando que este não é um projeto novo no audiovisual, e que existem outros nove tipos de coletivo aqui no Rio Grande do Sul. Porém, o Ecossistema Coletivo Audiovisual RS é mais focado em distribuição, usando técnicas para captar o tipo de audiência que o trabalho em questão será o foco.

Também ocorrerão masterclasses envolvendo as empresas coligadas, para serem debatidas ideias e também que as pessoas se conheçam e possam trocar experiências, sendo assim, levar adiante os projetos que pretendem desenvolver em conjunto.

Atualmente o Ecossistema Coletivo Audiovisual RS conta com mais de 90 empresas, com grande diversidade de áreas de atuação, indo além do cinema e incluindo desenvolvedoras de conteúdo para internet, podcasts, games e séries.

Debate sobre produção audiovisual

Giovani Borba é diretor de cinema, entre vários trabalhos têm no seu currículo os longas Banca forte (2014), Entre os dias (2015), e o premiado Casa Vazia (2023).

Em suas primeiras palavras, após a apresentação do ecossistema desenvolvido por ele e os colegas, Giovani comenta que o Rio Grande do Sul é muito fechado em relação ao cinema, somos muito ligados a nossos próprios conceitos, e temos dificuldade cultural de chegar no eixo Rio-SP, algumas coisas relativas ao nosso trabalho parece criar uma distância com o centro do país. 

Giovani concluiu que, apesar disso, estamos nos abrindo para novos ares e trazendo ideias diferentes para criar projetos dentro do Rio Grande do Sul, frequentando festivais e mostras em outras partes do Brasil e no exterior.

João Fernando Chagas, que além de produtor executivo do ecossistema, também é cineasta, começa suas considerações dizendo que tem um sentimento quase de comum acordo dentro do setor. Se investe muito pouco na distribuição de projetos que realizamos dentro do estado, os editais pertencentes às leis de incentivo à cultura tem melhorado a situação, porém somente agora começam a ter maior foco em distribuição de filmes.

Edu Rabin, coordenador do ecossistema e diretor de fotografia, comenta que o arco de uma ideia virar um projeto e chegar a finalização de um filme pode levar mais de cinco anos. O Ecossistema Coletivo Audiovisual RS quer tentar encontrar estratégias para fazer com que os filmes sejam vistos de forma abrangente, a princípio, a perspectiva não é de retorno financeiro, mas sim que os filmes sejam mais amplamente divulgados. 

Em seguida o debate foi aberto para perguntas dos alunos, confira as respostas dos convidados.

Giovani, sobre o filme Casa Vazia (2019), quanto tempo levou do desenvolvimento da ideia até a conclusão do projeto? Quais suas inspirações para fazer o filme? 

Giovani Borba: Eu tive a primeira ideia sobre ele lá em 2015, em 2017 que fui começar a colocar alguma coisa no papel. Fui selecionado para um programa argentino e lá surgiu a oportunidade de colocar um argumento numa oficina de projetos, o que fez eu desenvolver o roteiro.

Após isso comecei a escrever o roteiro em editais, conseguindo logo no segundo que era da Ancine, foi aí que veio o dinheiro para sair a produção e colocar as coisas em prática. 

Sempre tive muita vontade de fazer esse filme e que ele desse certo. Essa temática da fronteira no pampa com um olhar mais contemporâneo, mostrando que o peão também é uma pessoa comum, não anda mais a cavalo o tempo todo, anda de bicicleta e moto também, não é aquela visão que geralmente a gente tem do gaúcho pilchado com faca na cintura.

Eu tentei fazer um filme muito regional e fiel ao que eu queria, a visão crítica que eu enxergava o Rio Grande do Sul, que a nossa cultura é legal, mas ao mesmo tempo, não é legal. Eu tinha essa visão crítica e queria falar de um Rio Grande do Sul mais “roots”, e acho que isso desperta interesse nas pessoas por conhecer a cultura do estado. Tem gaúcho que é peão e não deixa de ser gaúcho andando de chinelo e bombacha, porque essa é a realidade, o mundo globalizado que vemos hoje em dia também chega no interior, e eu vi, por exemplo, um cara de bombacha e camisa do Barcelona do Messi, esse é o mundo moderno, esse é o gaúcho que está lá.

Desde a criação do roteiro o projeto estava circulando, o que despertou a curiosidade de muita gente e convite para festivais, quando o filme ficou pronto mandei alguns emails para começar a divulgar e o filme ser visto, claro que muita gente não vai te dar bola também, assim como, sempre vão ter pessoas que possam estar interessadas no seu trabalho. É o que não viemos falando aqui, a distribuição é muito importante por isso, para que os filmes sejam vistos. 

O Casa Vazia me abriu muitas oportunidades, até para projetos que possam vir no futuro; por isso, é importante ir fazendo uma boa rede de contatos e conseguir divulgação para o trabalho que você está fazendo. 

“Não existe ideia absurda, ela sempre começa horrível, temos que lapidá-la e às vezes leva tempo. Das ideias mais estúpidas podem sair as coisas mais incríveis”, concluiu Giovani Borba. 

Quais projetos vocês estão envolvidos atualmente?

João Chagas: Estou no momento com vários projetos em diferentes etapas de realização, um par de curtas-metragens que produzi que agora estão em processo de distribuição, também agora para 2025 um possível projeto com o professor Emiliano.

Eu não tenho todo acesso ou dinheiro do mundo, mas eu mais ou menos posso escolher o que quero fazer, então eu busco fazer projetos que me interessem e me agradam, além de, pagar minhas contas por um mês que seja.

Edu Rabin: Eu opto por escolher projetos que de alguma maneira possam mostrar meu trabalho, a produção tem um viés muito mais técnico, e a direção de fotografia, que é minha área, é um pouco mais artística e técnica também é claro.

Atualmente estou com um projeto em que atuo na produção e direção de fotografia, que é da produtora do professor Emiliano Cunha que está aqui com a gente. Já fui fotógrafo de diversos trabalhos do Emiliano, inclusive do longa Raia 4 (2019).

Tenho pretensões como produtor, encontrar lugares e pessoas que possam agregar de forma técnica e tenham os saberes que eu não tenho. Meu perfil é mais de juntar pessoas, e ano que vem também estou com possíveis projetos para televisão, inclusive o desenvolvimento de uma série, também com o Emiliano.

Onde um estudante que está se formando em produção audiovisual pode buscar suas primeiras oportunidades? Existe alguma área melhor para começar no mercado de trabalho?

Edu Rabin: Se você tem interesse em som, por exemplo, recomendo como primeira coisa listar todas as produtoras de áudio que temos em Porto Alegre, e mandar seja WhatsApp ou e-mail com seu portfólio, ou uma carta de apresentação, buscar no Instagram as pessoas que são técnicas de som para conhecer o trabalho.

Isso para começar é algo que você não precisa conhecer ninguém ou ir necessariamente em algum lugar, é um pouco trabalhoso, mas pode trazer frutos, digo, pois isso já aconteceu comigo tanto aqui no Brasil como na Espanha, onde usei essa tática e funcionou para conseguir um trabalho.

Giovani Borba: Tem uma coisa que eu faço até hoje para conversar com alguém e queria compartilhar. Acho que não necessariamente a gente precisa sempre oferecer um serviço, eu acho que nem sempre a pessoa tem uma oportunidade para te oferecer naquele momento. Por isso vale se apresentar e dizer sobre o que tem interesse de trabalhar, dizer em que momento está na carreira e pedir uma oportunidade de conhecer a produtora, tomar um café para trocar ideias.  

Às vezes a pessoa pode ficar numa situação um pouco chata por não ter uma vaga disponível naquele momento, ou como te dar uma vaga se ela nem te conhece ou você ainda não tem um portfólio. 

Quando você está saindo da faculdade tem que estar disposto no primeiro de tudo a criar conexões, acho difícil uma pessoa te negar uma conversa quando você demonstra interesse pelo trabalho dela e vontade de aprender mais sobre aquela área.

Outro exemplo que dou é o FRAPA, que vai ocorrer de 4 a 8 de novembro na Casa de Cultura Mario Quintana. O FRAPA é o maior Festival de Roteiro Audiovisual da América Latina, e vai acontecer aqui, na nossa casa, vem gente de muito longe e até de fora do país para participar dos workshops e debates com os diretores e roteiristas, nós do audiovisual de uma forma geral temos que aproveitar esse evento.

Quem não tem currículo, tem que ter uma simpatia ou uma cara de pau para falar com as pessoas e quebrar o gelo, ninguém vai atrás de serviço por você, pelo menos não quando se está começando.

Giovani como foi o período de pós-produção do filme Casa Vazia? Emiliano e Edu como vocês pensaram a fotografia do filme Raia 4? 

Giovani Borba: Eu adoro montagem, uma das grandes essências do cinema é a montagem, mas, na prática, no longa, foi o processo mais chato e confuso, onde eu sofri mais.

Montei o filme na época da pandemia, então por passar todo o tempo em casa eu fiquei muito tempo em cima da timeline de montagem dele, e acabei revisando muito e mudando diversas coisas dentro do Casa Vazia.

No set, temos que aproveitar o maior tempo possível para produzir, as filmagens são um período que passa muito rápido, tem que ter muita objetividade e planejamento para sofrer pouco no pós na hora da montagem.

Edu Rabin: Cada filme é um filme, exige procedimentos diversos, mas têm as nossas tendências pessoais, como olhamos para cada história.

Eu tenho a sorte de ter trabalho com pessoas que gostam de pensar a imagem com uma certa ousadia, onde a imagem por si só conta muito da história.

Em Raia 4, tinha estágios onde dividimos o filme, as imagens subaquáticas, as imagens oníricas, e as que a gente chamou de intimistas. Eu meio que tentei criar um perfil psicológico para a protagonista, e a partir daí a gente buscava enquadramentos e iluminação para tendenciar como uma forma de subtexto dentro do filme.

Quais são os caminhos de luta para conseguirmos mais espaço para produções brasileiras no streaming? E como se preparar psicologicamente para dirigir um projeto?

Edu Rabin: Primeiro de tudo é trabalharmos nossa própria saúde mental, em segundo ter a consciência de que cinema não se faz sozinho, e é uma luta de plumas e não de armas, uma colaboração.

Quanto mais inexperiente a gente é, mais fácil é acreditar que a gente sabe o que estamos fazendo. Temos que nos desacreditar um pouco, às vezes o menos é mais.

Emiliano Cunha: Não é fácil dirigir, eu acho que é uma construção de intimidade com o filme, uma intimidade estética, de todos os aspectos técnicos da produção. 

Você precisa ter um profundo conhecimento do que você quer fazer em cada momento do filme e por quê. Ao entrar no set, você tem que estar também comandando uma grande equipe, nesse momento é necessário ser muito fiel ao pacto que tu criou com o filme e com o personagem, mas nunca seja intransigente.

A grande conquista de dirigir é saber ser flexível o suficiente para ouvir e sentir o que está acontecendo no set, e adaptar o teu pacto técnico e estético para aquela situação.

Todo mundo depende de você ali, inclusive o filme, nem tudo se resolve na pós.

Giovani Borba: Eu acho que de alguma maneira, não por mal, mas a equipe vai estar sempre te testando sobre o quanto tu sabe sobre esse filme que quer fazer, então você tem que pensar sempre em tudo antes de começar a gravar. 

Quando as pessoas te encherem de perguntas, e quanto menos tu responder, mais elas vão te atravessar de uma maneira que muitas vezes você não vai achar legal. Quanto mais respostas você tiver para dar, mais as pessoas vão se sentir segurar no projeto.

As pessoas que trabalham com cinema são apaixonadas pelo que fazem, então você tem que vender a sua ideia, fazer elas se apaixonarem por seu filme e se sentirem motivadas por estar ali no projeto.

João Chagas: Em relação ao streaming, acho que, na verdade, a gente não quer que eles produzam mais conteúdo brasileiro, mas sim que eles paguem a devida cota deles de contribuição para a nossa indústria.

O cinema nacional é financiado principalmente pelo Fundo Setorial do Audiovisual, o recurso desse fundo vem de um imposto chamado Condecine, imposto específico do setor que vai direto para o fundo. 

Sempre que um filme passa no cinema ou na televisão, esse imposto é pago pelas empresas de telecomunicação ou pelos canais de tv a cabo. Essa verba vai para o fundo, e a partir daí, é possível avançar editais para financiar produções audiovisuais.

O que acontece atualmente, os serviços de streaming que atuam aqui no Brasil, eles não pagam esse imposto, isso é um imbróglio de longa data, além de termos passado por governos que não eram nada simpáticos a essa pauta. Já batemos na trave algumas vezes, mas até agora nada foi decidido sobre essa questão.

Se os streamings pagarem esse imposto, e esse dinheiro financiar a nossa produção, tem também uma outra dinâmica que entra em ação. 

Quando a Netflix produz uma série aqui no Brasil, e lança essa série como brasileira, essa série não é brasileira, ela é americana, porque o patrimônio e a propriedade intelectual é americana, o Brasil não tem direito de exploração daquela série. 

Ou seja, as plataformas de streaming com produções feitas aqui, geram um capital que roda lá fora, com o pagamento do imposto, esse recurso seria usado para financiar uma propriedade intelectual que vai ficar no Brasil e contribuir de volta para a nossa indústria. 

Confira a íntegra do debate no canal da Facs UniRitter no YouTube.

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Meu nome é Alisson Santos, natural de Porto Alegre (RS). Sou jornalista em busca de especialização em crítica de cinema. Neste blog, realizo coberturas de forma independente e compartilho conteúdo informativo sobre filmes, incluindo críticas, entrevistas, cobertura de eventos e outros destaques e informações sobre o universo cinematográfico.

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