Um drama hilário e profundo, bem ao estilo de Sean Baker
Anora ou “Ani”, como prefere ser chamada, a protagonista interpretada por Mikey Madison. Ela é uma stripper russo-americana de 23 anos que trabalha todos as noites em um clube de Manhattan. Ani conhece o russo Vanya (Mark Eydelshteyn), o filho de 21 anos de um bilionário de Moscou que fica na mansão de seu pai em Nova York e evita qualquer tipo de responsabilidade.
O diretor Sean Baker é conhecido por fazer filmes que mostram um lado diferente das cidades turísticas norte-americanas, como Tangerine (2015) em Los Angeles, o brilhante Projeto Flórida (2017) em Orlando, e agora com Anora em Nova York. Esse lado B aborda histórias que o grande mercado hollywoodiano não conta para o mundo, mostrando famílias em situação vulnerável e jovens mulheres na prostituição, buscando desestigmatizar assuntos que são vistos com preconceito.
Em Anora, os protagonistas se conhecem no clube e, após alguns encontros particulares na mansão imponente de seu cliente, Vanya ofereceu a Ani uma proposta de atendimento de uma semana com exclusividade por $ 15.000 em dinheiro adiantado, o que Ani, é claro, aceita.
Deslumbrada com o novo mundo que conhece, Ani começa a desenvolver sentimentos por Vanya, tentando se conectar mais com o jovem que não tem interesse em conversas mais profundas. Numa viagem para Las Vegas cheia de festas e jogos nos cassinos, Vanya pede Ani em casamento.
O conto da Cinderela moderna termina aqui, mas Anora de Baker está apenas começando. O sonho de Ani dura 45 minutos, e então os pais de Vanya ficam sabendo que seu filho adulto que ainda age como adolescente se casou com uma “prostituta”, como ela é identificada erroneamente várias vezes.
Pelo contrário do que possa parecer a quem ainda não viu o filme, Ani não é interesseira. (Mas e daí se ela fosse? Ele tem sua moeda e ela tem a dela. Ela é americana, o que significa um caminho rápido para um green card.)
Uma jornada frenética pelas ruas de Nova York está por vir, lembrando os excelentes trabalhos dos irmãos Safdie em Bom Comportamento (2017) e Joias Brutas (2019). Trazendo um envolvimento do início ao fim onde você não vê o tempo passar.
A atriz Mikey Madison fez seu primeiro papel de destaque no cinema ao interpretar Ani, que rendeu diversos elogios em Cannes, onde Anora ganhou a Palma de Ouro 2024. Numa atuação forte, Madison faz Ani parecer muito segura e ciente do que faz, totalmente no controle de seu corpo, e é ela quem escolhe usá-lo para seu sustento.
Ani é uma pessoa que não tem amparo familiar e busca afeto e segurança. A maior falha dela não é seu trabalho, mas sim acreditar tolamente que um garoto rico e superficial vê seu verdadeiro valor. O que nós, do público, podemos perceber desde o início que não vai dar certo.
Sean Baker, em um final triste com uma das cenas mais sutilmente conflituosas que ele já filmou, convida o público para refletir sobre quem somos e quem podemos julgar, numa sociedade atual onde o interior fica cada vez mais em segundo lugar.











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