A crítica passa por um momento de transformação, onde existem novas formas de criação de conteúdo, diz Dalenogare

Na terça-feira (14/01), a Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (Accirs) promoveu um encontro com o crítico de cinema Waldemar Dalenogare. Na sala lotada da Cinemateca Paulo Amorim, um amplo debate sobre cinema e o papel da crítica transcorreu por duas horas.

Dalenogare é crítico de cinema, pesquisador, historiador e professor universitário nascido em Porto Alegre. No Youtube, seu canal conta com mais de 280 mil inscritos. Dalenogare foi o primeiro sul-americano a entrar para a Critics Choice Association, que organiza a premiação Critics’ Choice Movie Awards. Morando fora do Brasil há oito anos, ele já cobriu presencialmente diversos festivais e premiações pelo mundo, incluindo Cannes e Oscar.

Após a apresentação feita pelo presidente da Accirs, Daniel Rodrigues, Dalenogare começou falando do início de seu trabalho como crítico, ainda que por hobby, enquanto cursava a faculdade de História na PUC-RS. Dalenogare diz que a crítica escrita tem um impacto bacana, porém dá maior visibilidade se houver um veículo tradicional para fazer a publicação.

Apesar da grande relevância que teve por décadas, nos dias atuais, Dalenogare comenta que a crítica escrita passa por uma transformação em virtude da pressão da pauta editorial: o conteúdo precisa ser publicado a todo custo, independente da qualidade, além de muitas vezes direcionar a opinião para onde irá gerar engajamento. Dalenogare cita como exemplo a cobertura de Ainda Estou Aqui, com grande pressão em conteúdos direcionados para Fernanda Torres, e o tendenciamento  para críticas negativas para Emilia Pérez, concorrente direto de Ainda Estou Aqui como melhor filme internacional nesta temporada de premiações.

Dalenogare comenta que começou no Youtube em 2019, também como hobby. Ele tinha o intuito de criar uma comunidade de pessoas que gostam de cinema, inicialmente sem monetização e com vídeos que não passavam de 50/100 visualizações. Mas com o tempo conseguiu o chamado “furar a bolha” e atrair mais pessoas para o canal. Dalenogare só trabalha com críticas de cinema, mas diz que com a criação de conteúdo voltada para o entretenimento, também veio a pressão para falar sobre séries e expandir para as redes sociais.

A crítica passa por um momento de transformação, onde existem novos meios de comunicação, novas formas de tratar sobre um determinado filme. Isso vem muito da pressão sobre o tipo de conteúdo que o público quer, comenta Dalenogare.

A figura do influenciador em meio a crítica

Nesta onda de criação de conteúdo na internet, que também afeta o cinema, envolvendo parcerias para divulgação de novos filmes e eventos, Dalenogare diz que são coisas ainda separadas, e o público reconhece isso e observa a crítica como uma espécie de curadoria. As pessoas trabalham e têm suas demais atividades do dia a dia, e quando vão ao cinema, querem assistir um bom filme. A crítica especializada traz a credibilidade para o espectador escolher o que vai assistir. Mesmo assim, Dalenogare recomenda que o público nunca descarte um filme, e assista para tirar suas próprias conclusões.

Com a sua experiência internacional, Dalenogare afirma que a figura do influenciador e do crítico nos Estados Unidos e em outros mercados é bem mais definida do que no Brasil. Em outros lugares, sessões para a crítica e imprensa, são exclusivas para esses formadores de opinião, enquanto as sessões de divulgação do filme aí sim são abertas a mais pessoas.

No Brasil, a linha é muito fina, e quem consome o conteúdo precisa saber diferenciar uma opinião crítica de uma patrocinada, por mais que muitas vezes sejam coisas parecidas. Dalenogare também comenta que cada vez mais os estúdios apostam nessa interação com o meio digital para quem sabe criar uma reação inicial positiva de um determinado filme, pela repercussão dele por influenciadores que o público gosta.

Falando sobre uma experiência própria, Dalenogare comentou sobre a experiência que teve com o filme Maníaco do Parque, do qual ele não gostou e acho problemático em diversos aspectos. A equipe de marketing do filme entrou em contato com Dalenogare sobre a possibilidade de fazer um vídeo patrocinado recomendando para as pessoas verem o filme. Para ele, essa é a linha onde se pode separar influenciador de crítico. Dalenogare diz que se sentiu desrespeitado como crítico, por pensar que uma empresa gostaria de comprar sua opinião, mas também releva por esse tipo de situação ser cada vez mais comum no mercado.

Existe essa fina linha que o crítico precisa ter um pé de influenciador, e eu rejeito totalmente isso. Precisa haver a diferenciação da crítica de quem está produzindo pelo hype, ou que gosta de cinema mas sabe que ele pode gerar engajamento e consequentemente lucro, parcerias e toda essa bola de neve, diz Dalenogare.

Após a conversa inicial, o encontro foi aberto para perguntas do público que lotou a sala da Cinemateca Paulo Amorim, incluindo jornalistas, estudantes, e fãs do canal no Youtube de Dalenogare.

No contexto contemporâneo de vinculação da crítica com muito mais meios de comunicação, você não considera uma estratégia para o criador trazer um conteúdo as vezes mais superficial para atrair o público? Ao invés de apenas críticas direcionadas de uma forma especializada?

Dalenogare: Esse assunto nos dias atuais com certeza pode ser muito pautado. Às vezes, a própria distribuidora vai colocar o número de vagas numa sala de cinema para fazer uma pré-estreia olhando os números que você tem no Instagram e no Tiktok. E aí a pessoa que esta produzindo um conteúdo sério, seja de crítica de texto para o jornal ou acadêmica, se ela não tem esse número, parece ver uma limitação e acaba tendo um sentimento que não vai conseguir entrar nas sessões. Então, essa pessoa passa para o caminho mais fácil, que é fazer um conteúdo totalmente diferente do que foi planejado inicialmente, mas para conseguir ter acesso e fazer a cobertura.

Falando mais sobre a questão dos números, infelizmente é algo que para produção de conteúdo é muito olhado hoje em dia. Em festivais internacionais como Cannes, por exemplo, são checados todos os meios de comunicação do profissional antes de haver a possibilidade de uma credencial.

Independente disso tudo, a visibilidade vem do diferencial do que você vai oferecer quanto a sua cobertura. Se vai falar sobre algo de forma séria, com credibilidade, sem apelar para clickbait, com certeza vai haver pessoas para consumir seu conteúdo. Ainda que na era atual seja muito mais fácil apelar para o clickbait para ganhar clicks e notoriedade, o reconhecimento pode vir porque o público sempre vai buscar também por opinião.

Nosso público brasileiro parece buscar validação no cenário mundial através de premiações. Você, como um crítico que mora fora do Brasil e é membro do Critics’ Choice, tem qual percepção sobre com o cinema brasileiro é visto internacionalmente?

Dalenogare: Neste tema com certeza temos que falar sobre Ainda Estou Aqui e a repercussão de como você pode conseguir engajar e criar um contexto que o Brasil ainda não tinha experimentado. É a primeira vez na internet que teremos um processo desse tipo, as pessoas estarem na torcida e repercutindo um filme.

A primeira disciplina que eu lecionei nos Estados Unidos era sobre a história do cinema latino, e senti uma dificuldade de conseguir levar as produções daqui para exibir lá. Nos Estados Unidos, tudo é mais regrado, tudo precisa de licenciamento; você não pode ter um filme em um pendrive e sair exibindo por aí. Essa barreira impede que o nosso cinema seja mais amplamente divulgado.

Sobre o cinema brasileiro internacionalmente, eu vejo com uma credibilidade sobre as produções que chegam no exterior, que normalmente são filmes pontuais que conseguem destaque das premiações lá fora, porém muitos trabalhos de qualidade não conseguem chegar. No ano passado, em um encontro da Academia Brasileira de Cinema, eu comentei para não ligarmos tanto para o Oscar. Apesar do nosso cinema precisar ser valorizado, nós não precisamos da confirmação internacional, são coisas diferentes.

Como foi seu caminho para começar a fazer coberturas internacionais?

Dalenogare: Geralmente os festivais internacionais abrem muito credenciamento de fora do local onde ele acontece, por exemplo, o Festival de Toronto, que dá muito espaço para veículos de outros países, incluindo o Brasil.

A primeira dificuldade com certeza é a questão de orçamento, pois é uma viagem que custa caro. Usando novamente o exemplo do Festival de Toronto, onde a cidade naturalmente já é bem cara e acaba inflacionando ainda mais em questão de acomodações no entorno do festival e demais outros serviços, devido ao público se concentrar em uma área só. Outra coisa é alguns festivais, como o de Toronto, pedirem que você não faça sua primeira cobertura internacional lá, que você já tenha uma experiência no circuito, seja na sua localidade ou em outros festivais internacionais de menor expressão, para chegar lá com bagagem e fazer uma boa cobertura.

O primeiro passo é ter essa bagagem no Brasil, que também oferece durante todo o ano diversas possibilidades em festivais, seja júri, curadoria ou a cobertura, coisas que vão engrandecendo o currículo.

Que dicas você dá para quem quer começar a trabalhar com cinema?

Dalenogare: Uma coisa que eu já comentei na Academia Brasileira de Cinema é o grande foco no eixo Rio-SP, quando temos o sul do Brasil que às vezes é esquecido, e o nordeste e norte que nem se fala, praticamente não há reconhecimento algum.

O que eu vejo no Rio Grande do Sul e as pessoas começarem produzindo curtas aqui e após isso migrar para o eixo Rio-SP em busca de mais oportunidades. Acho que a produção de curtas é um caminho que você consegue fazer um currículo ou ganhar notoriedade, sempre estando atento e se inscrevendo nos festivais, pois eles oferecerem um networking fantástico.

Onde nasceu sua ligação com o gênero terror? E o que você acha do filme A Substância estar figurante nas premiações onde os filme de terror dificilmente conseguem visibilidade?

Dalenogare: Minha ligação com o terror veio desde quando era criança e assistia às maratonas de filme de terror que passavam na TV a cabo na semana de Halloween. Desde então virei sou fã do gênero.

Filmes de terror são estigmatizados nas premiações desde sempre, como O Exorcista foi lá atrás em 1973, considerado como diabólico e escandaloso, que não deveria ser uma produção digna de ser reconhecida em premiação. Hoje em dia, as coisas mudaram, mas eu acho que existe muito ainda essa herança da rejeição ao terror especialmente por um grupo mais conservador no sentido de enxergar o drama como prioridade. Mas cada vez mais, com a política da Academia de trazer mais membros internacionais e jovens, isso irá ficando de lado e tendo o impacto amenizado.

Sobra o reconhecimento em A Substância, seja para Demi Moore, roteiro, direção ou o próprio filme, pode ser a própria Academia querer dizer que um filme que há dez anos atrás seria indicado só para maquiagem e penteado no máximo, hoje, está entrando para melhor atriz e as outras categorias principais.

E legal acompanhar esse momento e até a mudança no discurso que existe de dar essa visibilidade pro terror, algo que era inimaginável, basta ver a lista de grandes atuações esnobadas de dez anos para cá.

Quais são seus projetos para 2025?

Dalenogare: A prioridade deste ano, pensando no conteúdo do canal, é trazer mais entrevistas. Eu sou professor e amo dar aula. Neste primeiro semestre o foco ainda será o canal e a cobertura de Cannes na França, mas no segundo semestre quero voltar a dar aula, seja aqui ou nos Estados Unidos, seria muito bacana e é algo que eu quero. A cobertura no canal seguirá normal com todoas as premiações durante o ano.

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Meu nome é Alisson Santos. Sou natural de Porto Alegre (RS) e nasci em 1996. Jornalista buscando se especializar em críticas de cinema. Neste blog, realizo coberturas de forma independente e compartilho conteúdo informativo sobre filmes, incluindo críticas, entrevistas, cobertura de eventos e outros destaques e informações sobre cinema.

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