De um orçamento de três mil reais, o melhor filme do Fantaspoa até o momento

O cinema de horror atravessa décadas buscando maneiras de remodelar o medo em novas narrativas, mas poucos filmes conseguem capturar com precisão a essência do terror sobrenatural e psicológico.

Possuídos (1998), dirigido por Gregory Hoblit, combinou elementos do thriller policial com o horror sobrenatural ao introduzir um vilão insólito: Azazel, um demônio capaz de migrar entre corpos humanos apenas com um toque. Dessa forma, o filme nos obriga a encarar um antagonista que não pode ser destruído, apenas contido temporariamente. O aspecto do “mal invencível” é amplificado pela escolha estilística de um tom noir moderno, reforçando a atmosfera de inevitabilidade a derrota que cerca o protagonista, vivido por Denzel Washington.

Por sua vez, Nosferatu (2024), sob a direção de Robert Eggers, resgata o icônico vampiro criado por F.W. Murnau em 1922, conferindo-lhe um viés ainda mais perturbador e visceral. Eggers transforma o Conde Orlok em uma criatura mais próxima de um demônio do que de um vampiro tradicional. Assim como Azazel, Orlok não é apenas um predador à caça de vítimas, mas um agente do caos que espalha sua influência como uma peste inevitável.

Sob o Domínio (2025), de Julio Napoli, reúne elementos dos filmes mencionados, mas com uma abordagem original. Durante a sessão, a sensação de familiaridade foi evidente para mim, tornando a experiência ainda mais envolvente, pois acho os filmes citados acima excelentes. A protagonista, Cris (Raquel Monteiro), é uma psicóloga que atende um padre (João Santucci), que tenta se livrar de um trauma construído a partir de uma situação horrível.

Cris é uma mulher que vive sozinha e parece ser muito focada no trabalho. Sua única companhia frequente é uma amiga com quem conversa sobre coisas do dia a dia, incluindo a contradição de um padre que busca terapia, e eventualmente brincam com um tabuleiro Ouija. Curiosamente, reparo que Cris, apesar de especialista em comportamento e questões emocionais e sociais não parece manter contato com familiares, seja por mensagens ou ligações.

Repentinamente, ela recebe a notícia que o padre, seu paciente, teve um surto e precisou ser internado. Ao visitá-lo no hospital, inicia uma consulta informal, tentando entender o que poderia ter levado o padre, alguém que, apesar de buscar atendimento psicológico, não apresentava sinais de risco ou comportamento impulsivo, a tal crise. A partir desse momento, o filme se torna cada vez mais tenso.

O padre está estranho, visivelmente diferente de quando Cris o atendeu dias antes, e sua mudança desperta inquietação. Cris sempre tenta encontrar explicações teóricas da psicologia para justificar o comportamento do padre, enquanto conversa com a médica plantonista, apresenta análises plausíveis dentro do contexto clínico.

A virada de chave acontece quando, durante uma sessão de terapia no hospital, o padre revela estar possuído. Em um ato de desafio, Cris tenta instigá-lo e repete diversas vezes uma frase que, na vida real, poucas pessoas ousariam dizer frente a alguém supostamente possuído—afinal, vai que…? A partir desse momento, eventos inexplicáveis começam a se manifestar em sua vida.

O filme vai ficando cada vez mais atmosférico, sufocante, com sequências intensas de pesadelos, mortes e diálogos carregados de suspense, mantendo assim, o espectador conectado e tentando formular teorias sobre os próximos acontecimentos, aumentando a expectativa a cada cena e gerando uma ansiedade crescente pelo que virá.

Em sessão comentada na Cinemateca Paulo Amorim, o diretor Julio Napoli revelou que realizou o filme com um orçamento de apenas três mil reais—desses, seiscentos foram destinados somente à roupa do padre. Se faltou dinheiro, sobrou dedicação. A produção compensa suas limitações financeiras com atuações comprometidas, efeitos práticos bem executados, uma montagem precisa e um uso expressivo de cores vivas. Um combo que deixa o filme hipnotizante.

Sob o Domínio terá mais uma exibição no Fantaspoa, na terça-feira (22/04), às 17h30, na Cinemateca Paulo Amorim. Imperdível!

O diretor Julio Napoli (dir.) faz comentários e responde às perguntas do público após a sessão em 16/04. Foto: Alisson Santos/CineNewsPoa.

2 respostas para “XXI Fantaspoa – Sob o Domínio”.

  1. Avatar de XXI Fantaspoa encerrou com recorde de público presencial – CineNewsPoa

    […] The EmbodimentAno: 2025Gênero: Horror, Suspense, DramaBrasil – 90 min – Classificação: 18 anosMostra: NacionalAcesse a crítica. […]

    Curtir

Deixe um comentário

Meu nome é Alisson Santos. Sou natural de Porto Alegre (RS) e nasci em 1996. Jornalista buscando se especializar em críticas de cinema. Neste blog, realizo coberturas de forma independente e compartilho conteúdo informativo sobre filmes, incluindo críticas, entrevistas, cobertura de eventos e outros destaques e informações sobre cinema.

Posts recentes

  • Critics Choice Awards 2026
  • Top 10 2025
  • Foi apenas um acidente
  • Valor Sentimental
  • Especial de Natal 2025
  • Uma Batalha Após a Outra