Um horror zumbi argentino em quatro atos
O cinema de terror argentino tem se destacado nos últimos anos com a produção de diversos filme de grande qualidade, mesmo com o país enfrentando cortes de investimento público no setor audiovisual – algo que já mencionei ao falar sobre Massacre no Delta.
Retratos do Apocalipse é mais uma prova da criatividade e ousadia do gênero no país. Dirigido por Nicanor Loreti, Fabián Forte e Luca Castello, o filme é uma antologia que explora diferentes contextos de um apocalipse zumbi em Buenos Aires, dividindo-se em quatro histórias interligadas.
Cada segmento apresenta um estilo próprio, transitando entre o mistério, o horror visceral e o drama, enquanto constrói uma atmosfera de crescente desespero e caos. Fiz um resumo detalhado de cada episódio, incluindo pequenos spoilers:
Assassinato na Cena do Crime (Nicanor Loreti)
O primeiro conto abre com um tom de mistério policial, onde uma investigadora por interesses próprios tenta mudar a cena de um assassinato. No entanto, à medida que os eventos se desenrolam, ela começa a se envolver numa situação cada vez mais complicada ficando em um beco sem saída. E o pior de tudo, os mortos podem não permanecer mortos por muito tempo.
Ratas (Fabián Forte)
Meu favorito, sem dúvida – assistido com o diretor Fabián Forte presente na sessão comentada na Cinemateca Paulo Amorim. Durante a madrugada uma senhora, uma senhora percebe que um rato entrou no seu apartamento e sua gata sumiu ao ir caçá-lo. Ela decide acordar a filha e o genro para tirarem o rato da casa, mas eles pouco parecem se importar. Logo essa senhora descobre que há algo muito mais sinistro por trás do rato. O horror ainda vai se intensificar mais quando um segredo perigoso é revelado. Um curta repleto de suspense mas também com um tom de humor.
Rubí (Nicanor Loreti, Fabián Forte e Luca Castello)
Aqui, o filme utiliza um estilo de filmagem encontrada, os proprios protagonistas são quem fazem as filmagens, acompanhando uma mulher grávida que grava uma mensagem para sua filha enquanto o mundo ao seu redor desmorona. O drama pessoal se entrelaça com o horror apocalíptico, criando um dos momentos mais emocionantes e angustiantes do filme.
O Rei dos Condenados (Luca Castello)
O último episódio fecha a antologia com um ritual satânico, onde um pai desesperado tenta trazer de volta a consciência de seu filho possuído. O segmento é carregado de simbolismo e horror psicológico, culminando em um desfecho perturbador que surpreendeu o público a aparentemente foi considerado o melhor entre os quatro.
Retratos do Apocalipse é uma obra que equilibra terror, suspense e drama, explorando diferentes perspectivas sobre um apocalipse zumbi. Embora seja uma produção de baixíssimo orçamento, o filme se destaca pela criatividade e pela forma como utiliza seus recursos para construir um universo convincente.
Após a exibição, o diretor Fabián Forte falou sobre a construção do longa, revelando que o filme teve a participação voluntária de muitos familiares da equipe e que ele considera Retratos do Apocalipse um filme “feito em família”. Além disso, a edição de som foi feita de forma gratuita por um amigo da equipe.
Praticamente todo o orçamento foi destinado a pagar, mesmo que simbolicamente, os atores, além dos gastos com alimentação e transporte. Mas Fabián afirma que nem ele, nem Loreti e Castello se arrependem da forma como o filme foi feito:
“Nós três concordamos que fazer esse projeto de forma independente foi muito mais proveitoso. Cada um tinha muito claro o que queria fazer, com total liberdade para trabalhar – algo que normalmente não ocorre ao lado de uma produtora. Também tivemos o privilégio de nos darmos muito bem durante o trabalho. Isso sempre conta muito: escolher as pessoas certas para trabalhar junto, alguém que tenha ideias parecidas com as suas.” – comentou Fabián Forte.

Fabián Forte, um dos diretores de Retratos do Apocalipse, durante a sessão comentada na Cinemateca Paulo Amorim, no domingo (20/04). Foto: Alisson Santos/CineNewsPoa.











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