Um bairro em disputa
Por trás das ruas estreitas e do pulsante coração cultural do Bixiga, em São Paulo, há uma história que luta para não ser apagada. O Bixiga é Nosso!, dirigido por Rubens Crispim Jr., é mais do que um documentário sobre a resistência contra a especulação imobiliária e o apagamento histórico de um dos bairros mais emblemáticos da cidade.
O filme se debruça sobre a luta da comunidade do Bixiga, especialmente após a descoberta, em 2022, de vestígios do quilombo urbano Saracura, revelados durante as obras de uma nova linha de metrô. A narrativa se constrói a partir da mobilização popular para preservar essa memória e evitar que a identidade negra do bairro seja diluída pelo avanço da gentrificação.
Além da questão histórica, Crispim Jr. também destaca a batalha pela preservação arquitetônica do Bixiga, que desde os anos 1980 enfrenta ameaças constantes, apesar do tombamento patrimonial. O Teatro Oficina, por exemplo, trava há mais de quatro décadas uma disputa judicial para impedir a construção de torres comerciais no terreno vizinho, onde passa o Rio Bixiga. A recente autorização para a criação do Parque Municipal do Bixiga representa uma vitória parcial, mas o filme deixa claro que a luta está longe de acabar.
Visualmente, O Bixiga é Nosso! aposta em uma estética documental crua, sem edições excessivas, sem sequências contemplativas ou artifícios que suavizem a realidade. A câmera acompanha os moradores, ativistas e artistas que fazem do bairro um espaço de resistência, criando uma atmosfera de urgência e pertencimento.
Se há um mérito incontestável no documentário, é sua capacidade de transformar um tema local em uma discussão universal sobre memória, identidade e direito à cidade. Crispim Jr. não apenas documenta, mas provoca: até que ponto estamos dispostos a lutar por nossa história? O Bixiga, com sua efervescência cultural e sua resiliência, é um exemplo de uma comunidade brasileira que resiste há décadas e não se deixa abater diante das frequentes derrotas.
Particularmente, saí da sessão com uma energia renovada, com vontade de andar pelas ruas do Bixiga, conhecer o Teatro Oficina, tomar café na Padaria 14 de Julho. É motivador ver que ainda existe muita gente que se importa e luta pela nossa cultura e história.
Em tempos de apagamento e especulação desenfreada, O Bixiga é Nosso! se torna um manifesto audiovisual necessário. Um filme que não apenas informa, mas convoca o espectador a se posicionar. Afinal, a história de um bairro é também a história de um país.











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