Entrevista com o artista que criou a obra interativa que é destaque na Usina do Gasômetro
Chico Machado é um artista visual multimídia, curador de arte, músico e professor brasileiro. Sua trajetória artística é marcada pela diversidade de expressões, transitando entre pintura, desenho, escultura, performance e música.
Machado formou-se em Pintura e Desenho pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Posteriormente, especializou-se em Teatro Contemporâneo e obteve mestrado e doutorado em Poéticas Visuais também pela UFRGS. Sua atuação acadêmica inclui passagens como professor na Universidade do Estado do Rio Grande do Sul (UERGS) e na Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Atualmente, leciona no Departamento de Arte Dramática da UFRGS.
Além das artes visuais, Machado também se destacou na música, sendo membro da banda Aristóteles de Ananias Jr., banda gaúcha de rock alternativo fundada no fim dos anos 80, lembrada até hoje na cena cult do Rio Grande do Sul. No grupo, atuou como cantor, performer, cenógrafo, baixista e compositor, sendo autor da canção “Bico de Pato”.
Ainda durante os anos 90, decidiu se dedicar somente a Arte, criar e realizar performances de som envolvendo objetos do cotidiano. Participou de diversas exposições individuais e coletivas, além de espetáculos cênicos em diferentes funções. Recebeu premiações regionais e nacionais na área de artes visuais e teatro. Também é coordenador do Grupo Insubordinado de Pesquisa (GRIPE), onde realiza estudos sobre poéticas artísticas.

Nesta entrevista, conversamos sobre a sua primeira obra da carreira exposta na 14ª edição da Bienal do Mercosul, e a visão de Chico Machado sobre o momento atual da Arte. A nominada Obra Circular, exposta na Usina do Gasômetro, em que Machado aparece na foto acima fazendo testes, foi comissionada pela Bienal a teve suas peças danificadas durante a maior enchente que já afetou o Rio Grande do Sul.
A Obra Circular, começou a ser montada ainda em março de 2024, e no início de maio, algumas peças que fazem parte da estrutura de 6 metros de diâmetro, assim como todas as outras coisas no ateliê de Chico Machado, que localiza-se próximo a Avenida Farrapos, boiaram na enchente por quase um mês.
Chico teve que recomeçar, reconstruir, transformar e ter novas ideias para se adaptar. E assim, sua obra começou a ter ainda mais conexão com o conceito da Bienal desta edição, precisando do Estalo.


Esta temática da Bienal denominada Estalo, escolhida pelo curador Raphael Fonseca, visou a criação de obras de arte envolvendo transformação e impacto imediato, refletindo sobre mudanças na natureza, no corpo humano e no âmbito social.
A Obra Circular, como Machado mesmo explica, convida o público a participar da exposição, busca aflorar os sentidos e colocar o visitante em movimento.
Confira a íntegra de algumas respostas de Chico Machado durante a entrevista, uma matéria completa da 14ª Bienal do Mercosul será publicada aqui no blog na próxima semana, com mais conteúdo sobre Chico Machado e outros artistas que também participaram da Bienal.
Como surgiu o convite para expor na 14ª Bienal do Mercosul?
Chico Machado: No ano passado a equipe de curadoria da Bienal me procurou, pesquisaram sobre o meu trabalho e disseram que tinha a ideia do conceito que esta edição do evento iria ter. A Obra Circular, exposta no Gasômetro, foi comissionada pela Bienal. Até então eu nunca havia participado de uma Bienal, eu considero um evento artístico importante para a nossa cidade, pois traz uma democratização da arte, com as pessoas do nicho artístico frequentando os espaços e também o público mais casual que frequenta as exposições e também trazem opiniões diferentes.
Quais foram as suas influências para criar a obra e que impacto você pretendia causar no público?
Chico Machado: Acho que as influências vieram do meu próprio trabalho ao longo da carreira, comecei a produzir arte no início da década de 90, hoje em dia sou professor/doutor e seria coerente eu produzir para a Bienal uma obra que tem a ver com a minha trajetória na arte até aqui.
A Obra Circular exposta no gasômetro é interativa, convida o público a participar, as pessoas começam observando ela no início como se fosse uma escultura, descobrindo como ela funciona, após isso, muitos decidem entrar nela e interagir se movimentando e vendo os sons que ela produz.
Falando sobre isso, ao visitar a obra no Gasômetro eu procurei observar em como ela se conectava com o conceito da Bienal, o Estalo, a mudança, o movimento. Para mim, o fato dela ser interativa e fazer o visitante entrar no meio dela e se movimentar contribui para o dinamismo e conexão com o conceito das exposições. Está correta essa linha de pensamento?
Chico Machado: Normalmente as pessoas têm aquela ideia das exposições de arte que nada pode tocar, mexer, tudo deve ser só observado a alguma distância. A Obra Circular quebra essa parede com o público, as pessoas podem interagir no espaço, ouvir o som, também tem uma coisa mais lúdica remetida pelas cores, são vários tipos de interação nela que podemos observar.
Na arte existe um termo que se chama Sinestesia, usado para descrever experiências de união sensorial, ao ouvir sons ou associar letras a cores específicas, a partir disso o efeito da obra no público pode se tornar diferente, uma experiência mais agradável. Claro que cada pessoa tem seu tipo de percepção, mas no geral era essa a ideia.
Eu acho uma boa leitura da obra, eu pensei ela querendo esse tipo de reação em quem vai visitá-la, como eu tinha dito, às pessoas às vezes começam um pouco mais retraídas quando chegam perto dela, é uma estrutura grande, alta, de 6 metros de diâmetro, e aos poucos todos vão perdendo o medo de tocar e interagir. Uma obra pensada para ter contato direto com o público é claro que eventualmente pode quebrar ou desgastar alguma peça, é normal, e o público pode e deve entrar, tocar e interagir.
Falando um pouco mais sobre a obra, qual o destino dela quando a Bienal terminar?
Chico Machado: Por ser uma obra comissionada pela Bienal, ela vai permanecer com eles a partir de 1 de junho, alguns objetos nela são meus, mas ela vai ficar com a equipe da Bienal e por enquanto não sei se haverão mais exposições sobre ela. É uma estrutura muito grande então também não facilita o armazenamento e a locomoção.
Então a Obra Circular pode estar tendo uma única exposição nesta Bienal?
Chico Machado: Certamente, mesmo se ela fosse apresentada em outro momento, em outro lugar, não seria mais a mesma, teríamos que mudar coisas e fazer manutenções, esta finalização, que está lá exposta no Gasômetro, é uma versão única e acaba junto com a edição da Bienal.
Ao passar das décadas a Arte muda, se adapta às tecnologias, e vai se criando novos movimentos artísticos, com a presença maior em exposições de videoarte, projeções, novos meios de criar. Como você vê essas mudanças?
Chico Machado: Acho que você coloca bem a ideia, mas eu penso que a Arte em si não “muda”, quem vai mudando é a sociedade, nós vivemos em ciclos, vai muito do momento que o país ou determinada região está passando, isso tudo influencia as criações, seja pinturas, esculturas, performances.
A Arte se adapta conforme as coisas no mundo acontecem, seja os movimentos mais famosos como Renascimento e Expressionismo até os mais contemporâneos como a Arte Conceitual ou a Pop Art. Trazendo para o Brasil, e um período mais contemporâneo, temos um grande exemplo de renovação que é o Guto Lacaz, artista multimídia, ilustrador, designer, um grande nome da Arte no Brasil, e também aqui nessa edição da Bienal o Felipe Veeck, um artista mais jovem e com ideias novas e trabalhos visuais interessantes.
A Bienal do Mercosul termina neste domingo 1º de junho e está com exposições gratuitas em 18 espaços de Porto Alegre, incluindo lugares que normalmente tem entrada sempre paga, como o Farol Santander e a Fundação Iberê Camargo, além de ter na programação instituições conhecidas do povo gaúcho como a Casa de Cultura Mario Quintana e o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS). Não perca o último fim de semana!











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