A reportagem percorreu a 14ª Bienal do Mercosul explorando as obras que expandiram a conexão artística em Porto Alegre
De 27 de março a 1º de junho, Porto Alegre se transformou em um epicentro cultural com a realização da 14ª Bienal do Mercosul, evento que reuniu 76 artistas de 30 países. Com o conceito “Estalo”, escolhido pelo curador Raphael Fonseca, a Bienal explorou a ideia de transformação e impacto imediato, refletindo sobre mudanças na natureza, no corpo humano e no âmbito social.
Segundo Michele Zgiet, coordenadora da equipe de mediação da Bienal, o conceito de “Estalo” reflete a transformação instantânea. “O estalo é o momento em que tudo muda. Tudo se transforma. É som, mas também é movimento, uma ideia, um barulho rápido, uma recordação. O estalo é quando as coisas recomeçam, quando se transformam”, explica. As obras, espalhadas por Porto Alegre, convidam o público a experimentar essas mudanças e transições por meio da arte.
A diversidade de artistas evidencia a amplitude do diálogo cultural promovido pela Bienal. “Tivemos artistas do mundo inteiro: da Ásia, da América do Norte, do Sul — todos dialogando em torno de uma mesma temática, a partir de diferentes formas de expressão, que vão desde linguagens tecnológicas, como vídeos e instalações, até as formas mais tradicionais de expressão artística, como pintura e escultura”, destaca Michele Zgiet.
Além de reunir nomes consagrados, a curadoria apostou na inclusão de artistas estreantes. “Nesta Bienal, além dos artistas já renomados, também incluímos participantes que estão apresentando suas primeiras obras. Essa foi uma ideia da curadoria: reunir todas essas vozes, não apenas nos espaços expositivos, mas também pela cidade, trocando ideias e experiências sobre como foi produzir para a Bienal”, complementa.
Nesta toada de valorização de artistas, também teve dois estreantes gaúchos, o veterano Chico Machado, e o novato Felipe Veeck, ambos artistas visuais que confeccionaram obras comissionadas pela Bienal.
Felipe Veeck esteve com duas exposições em Porto Alegre: Passe Livre, uma obra que tem 48 metros de largura e cinco de altura, pintada no muro da Estação Cidadania, no bairro Restinga, e o Projeto Descaso, que está presente na Casa de Cultura Mario Quintana. Nela, Veeck aborda a enchente que devastou o Rio Grande do Sul em maio de 2024, sendo o seu bairro de origem, Vila Farrapos, um dos mais afetados na capital, ficando muitos dias debaixo d’água.

Falando na enchente, um criador e sua obra interativa que fez sucesso exposta na Usina do Gasômetro tem uma história com a tragédia de maio de 2024 que poucos sabem. Trata-se da Obra Circular, do já citado Chico Machado, um também estreante na Bienal mas já consolidado no meio artístico. Machado é professor e doutor em Arte, já foi músico e no início dos anos 90 começou a produzir suas próprias obras e realizar performances artísticas envolvendo som e imagem.

A Obra Circular, criada por Chico e comissionada pela Bienal, começou a ser montada ainda em março de 2024, e no início de maio, algumas peças que fazem parte da estrutura de 6 metros de diâmetro, assim como todas as outras coisas no ateliê de Chico Machado, que localiza-se próximo a Avenida Farrapos, boiaram na enchente por quase um mês.
Chico teve que recomeçar, reconstruir, transformar e ter novas ideias para se adaptar. E assim, sua obra começou a ter ainda mais conexão com o conceito da Bienal deste ano.

Apesar de mais de 30 anos de carreira, Chico Machado participa da Bienal pela primeira vez, e relata que o convite veio da equipe curatorial, que identificou uma afinidade entre seu trabalho e o conceito de transformação desta edição. “A obra Circular é interativa, convida o público a participar. As pessoas começam observando como se fosse uma escultura, depois decidem entrar nela e interagir, se movimentando e descobrindo os sons que ela produz”, explica Machado.
O caráter participativo da obra a conecta diretamente com o conceito do Estalo, reforçando a ideia de mudança e dinamismo. “Normalmente, exposições de arte impõem uma barreira, onde nada pode ser tocado. Aqui, o público pode interagir, ouvir sons e explorar as cores de maneira lúdica”, destaca o artista. A obra pode inicialmente causar uma certa hesitação no visitante, mas aos poucos todos se sentem à vontade para interagir.
Por ser uma peça comissionada pela Bienal, a Obra Circular permanecerá com a organização após o término do evento. O artista explica que, devido ao seu tamanho e complexidade, o futuro da obra ainda é incerto, e esta pode ser sua única exibição, nesta edição da Bienal. “Mesmo que fosse apresentada em outro momento, em outro lugar, não seria mais a mesma. Esta versão, que esteve exposta no Gasômetro, é única”, reconhece Chico Machado.
Imagem em movimento
O cinema começou a aparecer em exposições artísticas no final do século XIX e início do século XX, quando artistas e cineastas começaram a explorar suas possibilidades como meio de expressão visual. Com o tempo, museus e galerias passaram a incorporar filmes e fotografias em suas exposições, especialmente com o advento do cinema experimental e da videoarte. No século XX, artistas como Andy Warhol e Nam June Paik exploraram o vídeo como forma de arte, ajudando a consolidar a videoarte como um gênero dentro das exposições.
Essa edição da Bienal teve várias exposições de videoarte. Instalações que misturam técnicas de edição de imagens, manipulação digital e projeções para criar efeitos visuais e sensoriais no público.
Um grande destaque foi a instalação Dumping Core de Gretchen Bender (1951-2004), uma artista multimídia americana que foi pioneira em trabalho com vídeo, computação gráfica, fotografia, som, impressão e instalação. Em sua prática artística, Bender reunia imagens em movimento, primeiro com vídeos de um canal e depois com seus projetos imersivos chamados de “teatro eletrônico”.
Apresentada nesta forma teatral, com assentos num ambiente escuro, a obra Dumping Core, criada por Bender no longínquo 1984, instigou o público que visitou as exposições da Bienal no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), muitos ficando hipnotizados ao sentar e acompanhar a projeção na sala totalmente escura, outros quase não permanecendo no espaço que apresentava uma edição frenética e mixagens de áudio variados a fim de sobrecarregar o encontro com o público.
Outro local que teve uma exposição com presença massiva do público foi a Casa de Cultura Mario Quintana. Teoria Geral do Babalu Atômico, do artista contemporâneo brasileiro Randolpho Lamonier, foi comissionada pela 14ª Bienal e montada pessoalmente pelo artista no local.
Na exposição, Lamonier criou uma “ilha de edição”, misturando materiais têxteis, esculturas, neons, papéis de parede, fotos e vídeos. Teoria Geral do Babalu Atômico percorreu a história da humanidade desde o Big-Bang até os dias atuais, com objetos acumulados pelo chão e as paredes repletas de textos.
Por ser uma exposição muito próxima do público, durante os dois meses muitos objetos foram mexidos e até acrescentados, criando assim, uma exposição que foi de exibição única, assim como a Obra Circular de Chico Machado.

O professor de história Roger Campiol, da escola municipal de Porto Alegre Afonso Guerreiro Lima, levou sua turma para visitar as exposições da Bienal na Casa de Cultura e considera o evento um exemplo de acessibilidade à arte. “A Bienal é muito importante para nós, professores de escola pública, mostrarmos para os alunos a importância da arte, ensiná-los a apreciar a arte e os locais públicos, mostrar que esses espaços são gratuitos e também são para eles”, avalia o professor Campiol.
Cinema na Bienal
A Cine Estalo foi uma das atrações da Bienal, que pela primeira vez incluiu filmes na programação, apresentando um circuito de obras nacionais na Cinemateca Capitólio. A programação incluiu documentários que abordam temas como memória coletiva, resistência cultural e identidade. Cada sessão combinou dois filmes, proporcionando uma reflexão aprofundada sobre a temática do Estalo.
Os documentários que foram selecionados destacam narrativas que provocam reflexão e diálogo sobre temas atuais e relevantes, alinhando-se ao conceito de transformação e efemeridade proposto pela Bienal. A curadoria buscou apresentar obras que, assim como o Estalo, geram impactos imediatos e profundos, seja por meio da imagem, do som ou da história contada. A entrada foi gratuita para todas as sessões.
“A ideia do cinema surgiu logo no início porque quando a gente começou a organizar e pensar a curadoria das atividades e programas públicos, sempre pensamos em ter uma programação o mais diversa possível, tentando alcançar públicos diferentes, trabalhando em lugares diferentes da cidade. E dentre eles, a Cinemateca Capitólio, um dos espaços que se colocou à disposição para receber a programação da Bienal. Então, pensando também que é uma Bienal que tem presente vários trabalhos em vídeo, nós achamos que seria interessante fazer essa ativação do cinema”, comentou a curadora de Programas Públicos da Bienal, Marina Feldens.
Ela assina a curadoria de programas públicos da 14ª Bienal junto com Anna Mattos. Juntas, elas pesquisaram filmes brasileiros que foram protagonistas em festivais de cinema em todas as regiões do Brasil nos anos 2023 e 2024, lembrando que esta edição da Bienal estava prevista para o ano passado mas foi adiada em virtude dos impactos da inundação histórica em Porto Alegre.
Após uma pré-seleção de filmes que foram destaques em festivais, as curadoras entenderam qual era a abordagem, qual era a temática das produções. Então, fizeram a seleção dos filmes da Cine Estalo levando em consideração este conceito escolhido para a Bienal, procurando algum tipo de relação com a ideia ou também com a energia desta edição da Bienal, de ocupar espaços públicos em diferentes lugares, de promover o pensamento crítico e a mudança.
Com os filmes definidos, foram criados eixos temáticos. Cada dia das sessões obteve um tema. A Cine Estalo exibiu sua programação bem definida conforme o dia, com produções voltadas à cultura queer, à música e festas, representatividade das mulheres e ocupações e demarcações de território.
“Fazendo a curadoria dos programas públicos, nós acabamos trabalhando em diferentes áreas, diferentes atividades, exatamente no intuito de fazer uma programação plural, onde as pessoas tivessem muitas opções do que fazer em Porto Alegre, de reativar a cidade num sentido carinhoso também para a própria cidade. Vale lembrar que além da Cine Estalo também tivemos eventos para diversos nichos: passeios, workshops, performances, música e esporte, todos com boa presença de público”, conclui Marina.
O cinema documental, especialmente, tem a missão de capturar camadas invisíveis da sociedade, denunciar opressões e resgatar memórias. Quando aborda algum desses temas, o potencial e a expectativa aumentam significativamente. Anhangabaú, dirigido pelo porto-alegrense Lufe Bollini, destaca-se como uma obra que retrata a resistência urbana de artistas e de uma comunidade indígena Guarani Mbya. A cidade de São Paulo, palco de inúmeras disputas territoriais, tornou-se o epicentro de um embate entre capital e cultura, entre o direito à terra e os interesses especulativos, entre a tradição indígena e a modernização brutalista.
Lufe mora em São Paulo há 11 anos, participou do início da Ocupação Artística Ouvidor 63, no Vale do Anhangabaú, centro da cidade. Formado em Cinema pela Unisinos em 2004, e um dos criadores da produtora de filmes gaúcha Antifilmes, Lufe foi para São Paulo buscando novos projetos, mas continuou desenvolvendo seu estilo de cinema e pesquisas cinematográficas em relação à cultura enquanto arte que disputa territórios, que carrega a memória da cidade, visibilizando narrativas oprimidas em prol do desenvolvimento econômico.
“O processo de descoberta do cerne do filme foi sendo polido e lapidado durante a própria produção do filme, ouvindo histórias cada vez mais interessantes e as decisões políticas e sociais que envolviam a cidade de São Paulo na época. Eu nunca tive esse desejo de fazer documentários apenas informativos, tratando sobre um assunto ou outro que não fosse o meu próprio universo. Como eu já estava inserido na ocupação Ouvidor 63, eu comecei a observar diversos fenômenos sociais e culturais que dialogavam com essa questão de disputa de território, de especulação imobiliária, de gentrificação no centro de São Paulo”, explicou Lufe Bollini.
Lufe também comentou com exclusividade sobre uma situação que enfrentou durante uma sessão comentada de Anhangabaú apenas dois dias antes desta entrevista, quando numa exibição na Universidade Católica Ítalo-Brasileira, em São Paulo, acabou sendo extremamente hostilizado no local.
“Nós fomos passar o filme lá na Universidade Católica Ítalo-Brasileira a convite da instituição, mas não era para os universitários, era para o ensino médio que também tem no currículo da universidade. Só que eles não fizeram uma curadoria para ver o filme antes de exibir. Ou seja, virou um grande alvoroço a sessão, eram mais de 100 alunos adolescentes. Quando o filme acabou, começou uma vaia enorme, um monte de gente vaiando e um monte de gente aplaudindo. Então, assim, virou uma catarse de gente falando para tirar o filme, muitas vaias, mas também gente batendo palma, e eu no meio ali sem saber o que pensar. E daí muitos alunos, muitos homens, inclusive, muitos meninos, vieram para cima de mim, querendo me ofender”, relata Lufe Bollini.
Preferindo evitar a repercussão, Lufe não procurou a imprensa ou denunciou em suas redes sociais o caso ocorrido na universidade, mas durante essa entrevista comentou que, ao mesmo tempo em que quase foi agredido, curiosamente, vieram muitas meninas adolescentes e mulheres conversar com ele para falar que tinham adorado o filme e como era importante para elas, que estão inseridas naquele contexto católico ultraconservador, poder assistir um filme como aquele dentro da universidade.
A reflexão e debate provocado por Anhangabaú segue muito atual ainda mais em uma metrópole como São Paulo, frequentemente com áreas assediadas pela especulação imobiliária e obras de novas linhas de metrô. Vencedor de melhor documentário no Festival de Cinema de Gramado, e melhor montagem no Festival de Cinema da Fronteira, ambos em 2023, Anhangabaú foi exibido na Cinemateca Capitólio em sessão única que ficou lotada na terça-feira dia 13 de maio com a presença do diretor Lufe e a equipe de produção.

Adriana Guimarães, de 56 anos, estava visitando o MARGS e comentou que gosta de arte e visitar museus com o seu marido, mas há algum tempo não ia a exposições. “Vimos a propaganda e ficamos motivados de vir, estivemos presentes juntos na primeira edição da Bienal lá no Cais do Porto muitos anos atrás, e hoje em dia é tudo muito maior e em mais lugares, dá pra realizar um tour bacana pela cidade”, comenta Adriana.
Até o fim da apuração desta reportagem, a Bienal ainda não tinha finalizado 100% os dados sobre esta edição. No entanto, segundo a assessoria de comunicação, mais de 830 mil visitantes passaram pela Bienal deste ano — um número inédito, considerado pela organização um recorde absoluto. Além desse recorde de visitantes, também houve 800 agendamentos dos projetos educativos, o que demonstra a importância da arte na educação, levando as escolas a conhecerem as instalações da Bienal.











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