Uma carreira quase podada pelo machismo
O filme retrata a vida do performista Ney Matogrosso, que, depois de uma infância e adolescência rígidas e abusivas, transforma sua fragilidade em poder cênico e faz da música sua forma de expressão.
Como toda cinebiografia — um filme que conta a história da vida de alguém — Homem com H não consegue fugir de alguns clichês: cenas que nos dão a impressão de já sabermos onde vão dar ou que tentam desenhar como era o protagonista.
Nesse tipo de filme, existem dois caminhos: contar a vida inteira do artista — tendo, obviamente, que pular algumas partes significativas — ou focar em um período específico, como fez recentemente o filme Um Completo Desconhecido, sobre Bob Dylan. Nenhuma das formas está certa ou errada, é apenas um desafio para o diretor escolher qual abordagem é mais relevante historicamente.
Homem com H mostra muito de Ney Matogrosso como pessoa. Vemos bastante dele fora dos palcos e dos estúdios de gravação. O foco está mais em sua vida pessoal: as dificuldades que enfrentou até alcançar o sucesso, inicialmente com a banda Secos & Molhados, e sua consagração como estrela na carreira solo.
Ney foi um homem muito reprimido durante boa parte de sua vida. Desde criança, apanhava do pai militar por demonstrar interesse por moda e arte — até o início da vida adulta, quando decidiu ir embora de casa para nunca mais voltar. Por vários anos ainda enfrentou momentos em que outros homens tentavam lhe dizer como se comportar, o que vestir, o que cantar, entre outras interferências, tanto na vida pessoal quanto na profissional. A libertação de Ney veio quando ele decidiu se separar do grupo Secos & Molhados e recusou assinar um contrato que exigia abrir mão de toda a sua criatividade para se tornar um produto lucrativo — iniciando, assim, sua grandiosa carreira solo.
O filme tem uma montagem excelente, acompanhando, com as cores e o figurino, a época retratada e a transformação física do protagonista. Aos poucos, à medida que os palcos entram em cena, as cores tomam conta. A narrativa passa do tom opaco do branco, preto e cinza para um figurino colorido e brilhante, característico de Ney Matogrosso.
Jesuíta Barbosa está incrível no papel de Ney. Para mim, às vezes os trejeitos são um pouco exagerados, mas é inegável que ele vai muito bem, mesmo não cantando, o que também não poderia ser exigido dele. Seu estudo corporal foi impressionante — uma entrega física e mental muito intensa ao personagem. Fora ele, os demais atores são coadjuvantes, entrando e saindo de cena. Inclusive o personagem Cazuza (Jullio Reis), que tem uma participação breve, mas protagoniza uma cena bastante emocionante com Ney.
Homem com H brilha em uma narrativa que transforma o corpo de seu protagonista em um espetáculo de cores, sons e ousadia. Alguns atalhos e clichês incomodam, mas é definitivamente uma cinebiografia acima da média das lançadas nos últimos anos. O epílogo deixa uma sensação de dever cumprido por parte de um artista que foi precursor — fez o que fez em um período do Brasil em que ninguém tinha coragem — e que, até hoje, é celebrado por seu público. Em 2025, completa 50 anos de carreira e segue em plena atividade.











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