Um olhar crítico sobre o Brasil e as forças políticas que disputam o poder
Apocalipse nos Trópicos é basicamente a continuação do indicado ao Oscar Democracia em Vertigem (2019), ambos dirigidos por Petra Costa. Aqui, a diretora faz mais um registro dos anos turbulentos que o Brasil vive politicamente há mais de uma década, iniciados com o processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff e os angustiantes anos subsequentes, marcados pela polarização política do país e, especialmente, pela presidência de Jair Bolsonaro e sua péssima administração durante a pandemia de COVID-19.
O surto viral, no entanto, é apenas um dos quatro capítulos em que o filme é dividido, cada um focado em uma etapa diferente sobre como Bolsonaro surgiu, quem o apoiou e como ele os abandonou. O “apocalipse” no título é uma referência ao livro bíblico do Apocalipse, o que aponta para o quadro de referência escolhido por Petra neste novo filme — e que ela mesma narra em primeira pessoa: o cristianismo. Ou, para ser mais preciso, como o ex-presidente e seu círculo próximo (ou, como ela sugere, seus mestres silenciosos) transformaram a sede espiritual de milhões de cidadãos do país em uma arma durante um período de turbulência econômica e social.
O filme dá amplo protagonismo a Silas Malafaia — para quem não o conhece, um pastor pentecostal milionário e fervoroso — que teve um papel imenso na eleição de 2018 a favor de Bolsonaro. Malafaia usa há mais de vinte anos a fé em prol do poder, manipulando a comunidade evangélica por meio de notícias falsas e utilizando a Bíblia como instrumento de ameaça a tudo o que ele, em qualquer momento, pode considerar errado. Malafaia joga conforme seus próprios interesses: apoiou Lula em 2002 e Bolsonaro em 2018, não medindo palavras e ações para conquistar o que quer e difamar os opositores.

Petra tenta, ao longo do filme, analisar o retorno da doutrina fascista personificada por Bolsonaro e, além do fato de grande parte de seus eleitores serem evangélicos, questiona: por que as pessoas se voltam a ele? Seria apenas por causa dos poderosos que aprenderam a explorar isso por meio de notícias falsas e da demonização da esquerda? Ou seria algo presente antes e depois de Bolsonaro — uma lacuna que, segundo essa fé, pode e deve ser preenchida exclusivamente por um verdadeiro Messias?
Apesar de todo o fervor com que a direita a ataca por ser claramente de esquerda, Petra aborda o assunto com surpreendente franqueza e curiosidade, afirmando ter estudado a Bíblia pela primeira vez para entender esse fenômeno — que ela descreve como uma disposição de trocar o poder das mãos de políticos humanos por uma forma de governo “mais pura”, aos olhos de seus seguidores, sob o comando de um Deus invisível — e citando regularmente versículos, bem como as interpretações dos pastores evangélicos sobre eles, muitas vezes distorcendo os fatos para inflamar o clima contra seus opositores durante o ano eleitoral.
Em virtude de abordar muitas frentes, o documentário acaba narrando superficialmente todos os fatos. Eu gostaria, por exemplo, de ter visto o que a Igreja Católica pensa sobre tudo isso — especialmente sobre o uso da Bíblia para pregar violência de gênero nas igrejas evangélicas.
Finalizando minhas considerações, achei Apocalipse nos Trópicos um tanto superficial. Os monólogos de Petra são, às vezes, vagos e poéticos demais; sem eles, o filme poderia ter uns 20 minutos a menos. Uma versão de 90 minutos tornaria o filme mais acessível ao grande público, saindo do nicho em que Petra já tem audiência. Para o público inquieto do streaming, 1h50min é uma eternidade.
Apocalipse nos Trópicos é, basicamente, a história de homens poderosos contra homens poderosos — e das verdadeiras vítimas daqueles que transformam a fé em instrumento para alcançar poder político.











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