O estilo que chegou no limite
O Esquema Fenício, do cineasta Wes Anderson, abre com uma sequência que sugere ser seu filme mais ambicioso até então. Estamos em 1950, e Anatole “Zsa-zsa” Korda (Benicio del Toro), um industrial enigmático e um dos homens mais ricos da Europa, é alvo de mais uma tentativa de assassinato. Uma bomba é secretamente plantada em seu avião, mas, nesta ousada fuga aérea, Korda consegue pousar a aeronave em um milharal, sobrevivendo por um triz (o que não é exatamente uma surpresa, já que este é seu sexto acidente aéreo, como o filme nos informa).
Apesar de uma abertura anormal e divertida, este é, para o bem ou para o mal, mais um filme excêntrico de Wes Anderson, com todos os mesmos métodos pelos quais ele já é conhecido. A fórmula se repete e, desta vez, ficou realmente cansativa.
Para quem não conhece o estilo ou nunca viu seus filmes, Wes Anderson é um dos cineastas mais facilmente reconhecíveis do cinema contemporâneo. Ele construiu uma linguagem própria que mistura rigor estético, humor peculiar e uma sensibilidade melancólica. Na primeira vez que você assistir a um filme de Wes Anderson, em todas as vezes posteriores, mesmo sem nenhuma informação prévia, saberá de imediato que está diante de uma obra dele.
Voltando ao filme, O Esquema Fenício é agradável e executado com o brilhante controle e a estética habitual de Anderson, mas é, de alguma forma, menos detalhado e inspirado visualmente do que alguns de seus trabalhos anteriores. Há menos simpatia excêntrica pelos personagens, e é desconcertante ver atores do calibre de Tom Hanks, Willem Dafoe e Scarlett Johansson em pequenas participações especiais, impassíveis e quase imóveis. Vale ressaltar, no entanto, a presença simpática de Mia Threapleton, filha de Kate Winslet, que interpreta Liesl, a futura herdeira do excêntrico milionário.
Basicamente, a história do filme gira em torno do protagonista colocando em prática um plano mirabolante para dominar a economia de uma nação fictícia do Oriente Médio, por meio de uma série interligada de empreendimentos de mineração, transporte e pesca, com uso de trabalho escravo exploratório. Além disso, ele manipula o mercado agrícola de forma a provocar fome. Cada capítulo em que o filme é dividido chama atenção no início pela chegada de uma nova estrela; mas, quando terminava, eu já não lembrava mais como tinha começado.
O método, a fórmula e o estilo único de Wes Anderson de fazer cinema parecem ter se tornado entediantes e estar em declínio a cada novo filme. Penso que ele nem se importe, na verdade, e que o feedback do público e da crítica para O Esquema Fenício não terá nenhum impacto em seu próximo projeto. Anderson, para mim, acredita estar fazendo arte, pintando um quadro em movimento. Artistas, em geral, têm muita dificuldade em mudar seu estilo ao longo da carreira — ou simplesmente não querem. Talvez este seja o caso de Wes Anderson. O Esquema Fenício é um filme cansativo, feito a serviço de seu diretor e de seu elenco repleto de estrelas.
Como os filmes de Wes Anderson sempre têm tantas estrelas?
Algo a se observar é que, desde o início de sua carreira, há quase 30 anos, o diretor sempre contou com atores e atrizes renomados em seus filmes. A partir de Os Excêntricos Tenenbaums (2001), passou a reunir, de forma consistente, nomes famosos do cinema mundial. Mas como Wes Anderson consegue reunir elencos tão estelares em todos os seus projetos?
Basicamente, Anderson é considerado um diretor “de autor”, com estilo único e inconfundível. Muitos atores veem trabalhar com ele como um selo de prestígio e até um desafio criativo — quase como participar de um projeto artístico, mais do que de um filme comercial.
Ao longo dos anos, ele criou parcerias de longo prazo com atores que voltam em vários filmes: Bill Murray já participou de quase todos; Jason Schwartzman, Owen Wilson, Tilda Swinton, Adrien Brody, Willem Dafoe e Edward Norton também se repetem. Esse “clube Anderson” transmite credibilidade e prestígio em um nicho específico do cinema, o que naturalmente atrai outros profissionais.
Os personagens de Anderson são muito distintos, distantes do lugar-comum de Hollywood. Para um ator, interpretar alguém excêntrico, melancólico ou estilizado pode ser um desafio divertido, diferente do que recebem em produções de estúdios. Durante seu maior sucesso, O Grande Hotel Budapeste (2014), por exemplo, o elenco inteiro ficou hospedado no mesmo local, jantava junto e vivia como se fosse uma trupe de teatro. Isso cria um clima de comunidade que os artistas valorizam.
Resumindo: embora seja autoral, seus filmes têm visibilidade internacional em festivais e bilheterias. Para atores e atrizes, é uma forma de participar de um projeto reconhecido artisticamente sem abrir mão da repercussão global, gerando um efeito dominó. Como já consolidou um círculo de grandes atores, outros nomes importantes se sentem atraídos a entrar na “galeria” de colaboradores. É um pouco como acontece com diretores como Tarantino e Scorsese: trabalhar com eles se torna um status, independentemente do projeto.











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