O Brasil distópico de Gabriel Mascaro

Em uma dimensão onde o governo obriga idosos a se mudarem para colônias habitacionais isoladas, O Último Azul acompanha Tereza, uma mulher de 77 anos que, antes de ser exilada compulsoriamente, embarca numa jornada pelos rios da Amazônia para realizar um último desejo que pode mudar seu destino para sempre. Dirigido por Gabriel Mascaro e estrelado por Denise Weinberg, o filme transforma a velhice em potência narrativa, desafiando o etarismo e propondo uma reflexão sobre liberdade, autonomia e resistência.

Gabriel Mascaro retorna ao cinema com uma obra que reafirma sua vocação para o hibridismo narrativo e a crítica social embutida em fabulações distópicas. Ambientado na Amazônia, o filme mistura gêneros com ousadia: há ecos de ficção científica, drama existencial, sátira social e até vestígios de “faroeste tropical” — se não existe eu inventei. Tudo isso costurado por uma estética que transforma o exótico em universal — e o universal em profundamente brasileiro.

A paisagem amazônica, mesmo capturada em enquadramentos contidos, pulsa como personagem. Mascaro brinca com a dualidade entre o espaço aberto e a sensação de clausura. A floresta, tradicionalmente associada à aventura e ao desconhecido, aqui se torna um limbo onde os personagens vagam sem rumo. Rodrigo Santoro interpreta um homem em deriva emocional, cruzando as águas em busca de uma reconciliação impossível. Adanilo, por sua vez, vive uma estagnação em terra firme para um homem que ganha a vida no ar: seu avião ultraleve não decola, e ele não consegue concertar, permanecendo preso a apostas e memórias de uma fortuna perdida no tal “Peixe Dourado”.

Tereza, interpretada com delicadeza e força por Denise Weinberg, é o fio condutor da narrativa. Ela vive numa cidade cercada por água, mas sonha com o céu. Sua trajetória é marcada por perguntas que ecoam a frustração de uma geração: “Por que não antes?”

O filme também insere elementos tecnológicos — como a Bíblia eletrônica vendida por R$250 — para criticar o mercantilismo religioso e a exploração da fé. Essa crítica, já presente em Divino Amor (2019), se intensifica aqui com uma melancolia satírica que denuncia o descarte do que é “velho” no Brasil, assim como as pessoas tratadas como inúteis e relegadas ao cemitério de elefantes.

Mascaro, ao lado de cineastas como Kleber Mendonça Filho, integra uma geração que consolidou o cinema pernambucano como referência internacional. A força da produção local, sustentada por políticas públicas e coproduções internacionais, permite que filmes como O Último Azul circulem em festivais e ganhem musculatura autoral. É um cinema que não se limita ao eixo Rio-São Paulo e que revela outras geografias e subjetividades.

Apesar da presença de Rodrigo Santoro, sua participação é pontual. O filme não gira em torno dele, o que pode gerar frustração em parte do público atraído pela estrela. Essa estratégia de divulgação, embora compreensível no circuito comercial, levanta questões sobre o impacto do marketing na recepção do filme. Mas talvez o filme encontre seu público justamente entre aqueles que buscam o inesperado.

O Último Azul é um filme que desafia classificações. É lírico e áspero, político e poético, local e universal. Gabriel Mascaro constrói uma distopia que não se passa no futuro, mas no Brasil de agora — onde o céu é promessa, a terra é prisão, e o azul é a cor da dúvida.

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Meu nome é Alisson Santos. Sou natural de Porto Alegre (RS) e nasci em 1996. Jornalista buscando se especializar em críticas de cinema. Neste blog, realizo coberturas de forma independente e compartilho conteúdo informativo sobre filmes, incluindo críticas, entrevistas, cobertura de eventos e outros destaques e informações sobre cinema.

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