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Faça Ela Voltar

O luto que se transforma em loucura

Os irmãos australianos Danny e Michael Philippou retornam com Faça Ela Voltar, após o sucesso inesperado do seu primeiro filme, Fale Comigo (2022).

Aqui vemos um terror que mergulha na dor do luto e na fragilidade da mente humana. Se antes a dupla conquistou notoriedade ao explorar a linguagem frenética das redes sociais em um horror urbano, agora a aposta é em um ambiente claustrofóbico e rural, onde o verdadeiro monstro talvez não seja sobrenatural, mas a obsessão e a instabilidade emocional.

A trama acompanha Andy (Biddy Barrett) e Piper (Sarah Wong), irmãos que perdem o pai de forma repentina e são colocados sob a guarda de Laura (Sally Hawkins), uma ex-assistente social que também carrega uma perda irreparável: a morte recente da própria filha. Instalada em uma casa isolada, Laura aparenta ser acolhedora, mas logo revela comportamentos estranhos, que vão da superproteção a Piper — uma jovem com deficiência visual — até o isolamento de Oliver (John Rand Phillips), outro menino sob seus cuidados, mantido à parte da convivência.

Os Philippou apostam em um jogo duplo: de um lado, o filme dialoga com o drama psicológico, expondo diferentes camadas do luto — aquele que busca reconstrução e aquele que leva ao isolamento destrutivo; de outro, flerta com o sobrenatural, introduzindo elementos ritualísticos em fitas VHS, apesar de intrigantes, muitas vezes soam apenas como acessórios estéticos. O que sustenta a narrativa, no entanto, é a presença magnética de Sally Hawkins, atriz conhecida principalmente por A Forma da Água (2017), trabalho onde foi indicada ao Oscar e Globo de Ouro de melhor atriz. Aqui, Sally entrega uma de suas performances mais complexas, transformando Laura em uma figura simultaneamente vulnerável e aterrorizante, uma mãe quebrada que oscila entre acolhimento e manipulação.

Mais do que sustos ou efeitos grotescos, Faça Ela Voltar aposta na atmosfera. A casa, com seus espaços fechados e uma casa da piscina trancada que esconde segredos, funciona como personagem: um cenário sufocante que amplifica o desconforto dos protagonistas e do público. A trilha sonora e a manipulação de ruídos reforçam essa sensação de prisão psicológica, em que até a sanidade parece escorrer pelos cantos das paredes. Na grande sala de cinema em que vi, os barulhos de utensílios, batidas, dentes (difícil esquecer), pareciam estar sendo feitos na hora, tamanha a qualidade do design de som.

Se por vezes o excesso de simbolismos dilui o impacto final — abrindo frentes dramáticas que nem sempre encontram resolução —, o filme acerta ao não oferecer saídas fáceis. Como em Fale Comigo, os diretores mantêm-se firmes na recusa de “salvar” seus personagens: quando o destino é trágico, ele se cumpre. E talvez aí resida o verdadeiro horror do longa: a vulnerabilidade de jovens como Andy e Piper diante de um mundo que, em vez de protegê-los, os lança nas mãos de uma pessoa adulta destruída psicologicamente.

Faça Ela Voltar não é um terror para todos os públicos. Ele exige paciência para ser assimilado como uma reflexão sobre dor, maternidade e obsessão. O sobrenatural pode até ser dispensável, mas a descida de Laura rumo à loucura e a forma como a câmera dos Philippou a acompanha consolidam o filme como um retrato perturbador do luto que devora — e de como, no cinema de horror contemporâneo, a mente humana continua sendo o território mais assustador.

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Meu nome é Alisson Santos. Sou natural de Porto Alegre (RS) e nasci em 1996. Jornalista buscando se especializar em críticas de cinema. Neste blog, realizo coberturas de forma independente e compartilho conteúdo informativo sobre filmes, incluindo críticas, entrevistas, cobertura de eventos e outros destaques e informações sobre cinema.

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