Pelos corredores do maior edifício residencial da América Latina
Ícone da arquitetura modernista brasileira, o Edifício Copan é um dos símbolos mais reconhecíveis da capital paulista. Projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1966, o prédio impressiona por suas curvas sinuosas e pela grandiosidade de sua estrutura.
Com 38 andares e cerca de 1.160 apartamentos, o Copan abriga uma população estimada entre 4.000 e 5.000 moradores, o que o torna a maior estrutura residencial da América Latina em área construída. Seu térreo abriga lojas, restaurantes e serviços, funcionando como uma verdadeira cidade vertical no coração do centro paulistano.
Além de sua importância arquitetônica, o Copan é também um retrato da diversidade urbana: moradores de diferentes classes sociais e estilos de vida convivem no mesmo endereço.
O documentário Copan (2025), dirigido pela gaúcha Carine Wallauer, foi filmado ao longo de cinco anos e adota um olhar observacional para capturar a rotina, as tensões e os afetos que se desenrolam dentro do edifício. Carine — que foi moradora do prédio — escolhe como fio narrativo o período da eleição presidencial de 2022, e o período da eleição de síndico do prédio, cargo ocupado por Seu Afonso há mais de três décadas, para discutir temas como poder, mudança e resistência. A câmera se detém nos corredores, nas reuniões de condomínio, nas conversas por trás das portas e nos rostos dos trabalhadores invisíveis que mantêm o prédio funcionando.
Ao mesmo tempo, a diretora observa o Copan como um corpo em transformação: a chegada de locações temporárias e o fluxo de turistas mudam a relação dos moradores com o espaço. O que antes era “casa” passa a disputar identidade com a imagem de cartão-postal. A própria diretora precisou se mudar após o apartamento em que morava ser vendido para virar um Airbnb. Além disso, o documentário sobre o prédio também funciona como metáfora para o Brasil de 2022, cujas eleições presidenciais ecoam no microcosmo do condomínio, que se torna uma miniatura de uma nação polarizada.
Como jornalista — profissão de quem ama contar histórias, mas, acima de tudo, ouvi-las —, confesso que ao ver o título do filme, sem saber mais sobre ele, esperava algo próximo a Edifício Master (2002), de Eduardo Coutinho: um mosaico de personagens, com depoimentos engraçados e emocionantes. Mas logo percebi que as construções são diferentes: cidades distintas, propósitos distintos. Entendi melhor tudo isso durante a sessão única comentada por Carine, realizada na Cinemateca Capitólio na sexta-feira, 12 de setembro.
“A vontade de fazer o filme surgiu na pandemia, porque eu estava presa lá dentro e percebi que não existia um longa-metragem sobre o Copan, apenas reportagens de TV. Nunca tive o interesse de fazer um filme de entrevistas, mas queria conhecer as pessoas. Foram dois anos de estudo e pesquisa, em que tive um acesso privilegiado por ser moradora e ter boa relação com os funcionários, que convenceram Seu Afonso a me deixar documentar o prédio”, contou Carine.
No período atual que vivemos, em que se assiste os cortes ao invés do podcast, lê-se o resumo do livro ao invés do livro, se vê o filme de 2h30 dividindo em cinco partes no streaming, admiro a coragem da diretora em fazer um documentário mais contemplativo, por vezes se alonga em detalhes que podem dispersar o público menos familiarizado com o prédio ou suas disputas internas. Na sessão lotada do Capitólio, ao menos dez pessoas abandonaram o filme durante sua exibição. Ainda assim, esse ritmo contemplativo é também o que dá densidade à obra — é preciso tempo para sentir a respiração do Copan e entender/aceitar que o documentário é sobre a rotina do prédio e não das pessoas nele em específico.
Apesar do filme não ser o que eu esperava, eu entendi em certo ponto que era um filme observacional, me desanimou, mas segui prestando atenção no que estava sendo exibido, e o que eu entendi foi a diretora buscando retratar o Copan de uma forma mais emocional, sentimental, com recortes do dia a dia dos moradores sem colocá-los em situações específicas. Mas meu maior ponderamento é você gravar uma entrevista de três horas com o KL Jay —morador do prédio— , e não usar 1 minuto do material, ou acompanhar aquele síndico interessante e controverso mas ele falar tão pouco, eu tenho certeza que foi um desperdício de oportunidades narrativas, infelizmente.
No fim, Copan (2025) não é um documentário arquitetônico nem histórico. É uma reflexão sobre comunidade, poder e memória — sobre como o espaço urbano molda e é moldado por quem o habita. Carine Wallauer entrega um retrato político e poético, transformando um dos maiores ícones paulistanos em espelho do Brasil contemporâneo.
“Tive a certeza enquanto fazia o filme é que eu não queria ser redundante com aquilo que as pessoas já tem fácil acesso sobre o prédio. Tentei trazer a experiência de alguém de dentro. O Copan não é o prédio que o próprio Niemeyer sonhou, e o filme é sobre isso, sonhos, expectativas, trocas de energia e coisas da vida”, explicou a diretora Carine Wallauer em uma de suas falas finais.

Diretora de Copan, Carine Wallauer (dir.), durante a sessão única do filme em Porto Alegre na sexta-feira 12/09, na Cinemateca Capitólio. Crédito: Alisson Santos/CineNewsPoa.











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