Medos Herdados, Histórias Inventadas
Germano de Oliveira, cineasta gaúcho conhecido por sua atuação como montador, principalmente em filmes como 7 Prisioneiros (2021) e Homem com H (2025), além de assinar a direção em diversos curtas, estreia no longa-metragem com Bicho Monstro, um filme que mergulha nas brumas do imaginário popular do Sul do Brasil e resgata a figura do Thiltapes — criatura lendária que, segundo o folclore da Serra Gaúcha, vive escondida na mata, é evitada pelas pessoas e, ao mesmo tempo, é tema de histórias passadas de geração em geração. Mais do que um retrato de um “monstro”, o longa é um estudo sobre como criamos nossos próprios medos, os alimentamos e os deixamos crescer.
Filmado em Santa Maria do Herval e Morro Reuter, Bicho Monstro entrelaça duas linhas temporais: de um lado, Ana (Kamily Wagner), uma menina do presente que assiste a uma peça de teatro sobre o Thiltapes; de outro, um botânico alemão (Pascal Berten), dois séculos atrás, obcecado pela criatura e disposto a encontrá-la. Esse recurso narrativo amplia o alcance do mito — ao mesmo tempo em que a lenda atravessa gerações, ela também se transforma, assim como os personagens, que lidam com inseguranças, traumas e inquietações que a criatura simboliza.
O filme revela um olhar sensível e contemplativo, quase documental. Sua câmera prefere o sussurro ao grito, os detalhes da mata ao choque de um susto. Há algo de realismo fantástico na forma como a criatura é apresentada: nunca totalmente vista, sempre presente, como uma sombra psicológica. Essa escolha pode frustrar quem espera um terror ou suspense convencional, mas dá ao longa uma densidade rara — o “monstro” está menos na mata e mais no íntimo dos personagens.
Chama atenção também o cuidado estético da produção e a ambientação em vilarejos de colonização alemã que ajudaram a dar autenticidade e criar uma atmosfera de suspense silencioso. Isso foi reforçado nos comentários da equipe que estava presente na sessão de pré-estreia realizada na Cinemateca Paulo Amorim, no domingo, 14 de setembro. Durante a conversa, os membros da produção — incluindo o diretor de fotografia Bruno Polidoro e a diretora de arte Gabriela Burck, ambos premiados com o Kikito no 53º Festival de Cinema de Gramado, dentro da Mostra Sedac Iecine de Longas Gaúchos — destacaram o bom relacionamento que tiveram com os moradores das cidades onde o filme foi rodado e também sobre as escolhas técnicas da produção.
“O filme nasceu como um projeto observacional, com locações reais e pouca intervenção. Com o desenvolvimento do roteiro e da produção, percebemos que o estilo de filmagem que mais se encaixava era essa câmera que observava os personagens, mostrando a curiosidade no olhar deles e nos convidando a observar junto”, comentou Bruno Polidoro.
Por outro lado, o ritmo pode ser um obstáculo para espectadores menos pacientes: o longa se demora em planos e silêncios que pedem um olhar contemplativo, caminhar na mata e escutar os sons junto com os personagens. A criatura, mantida como presença simbólica, pode ser lida como genial ou frustrante, dependendo da expectativa de quem assiste.
“Nós estudamos bastante e vimos que o Thiltapes tem diferentes tipos de representação. A cabeça de rato e o corpo de pássaro são uma constante, mas ele é um animal que, em tese, vive no imaginário da comunidade e não tem uma forma exata que todos conheçam. Depende da localidade ou de quem conta a história. Por isso, no filme, ele está mais representado como uma presença do que como uma figura em si”, explicou Gabriela Burck.
No fim, Bicho Monstro não é apenas um filme sobre uma lenda. É sobre como comunidades constroem narrativas para explicar o inexplicável, como o medo se transmite de geração em geração e como, em última instância, o “monstro” somos nós — nossas ansiedades, culpas e conflitos. Germano de Oliveira estreia na direção de longa-metragem entregando um filme que mais provoca reflexão do que dá respostas. Bicho Monstro é suspense e poesia na Serra Gaúcha, um convite a se perder na mata — e talvez encontrar algo de si mesmo no caminho.

Equipe do filme durante a sessão comentada de pré-estreia no domingo (14/09), na Cinemateca Paulo Amorim. O diretor Germano de Oliveira estava em um compromisso em São Paulo. Crédito: Alisson Santos/CineNewsPoa.











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