Longa-metragem com um ensaio íntimo sobre luto, ancestralidade e tempo

O documentário Cais nasce de um acontecimento muito triste: a morte da mãe da diretora, Safira Moreira. Ao percorrer cidades banhadas pelos rios Paraguaçu, na Bahia, e Alegre, no Maranhão, Safira busca reencontrar a presença materna em paisagens, gestos e tradições. Este primeiro longa-metragem da diretora não é uma obra propriamente linear ou com um roteiro tradicional, então cabe ao espectador ir de mente aberta e refletir sobre os depoimentos e imagens do filme.

Cais abre com imagens do preparo do dendê e da farinha de mandioca, representando metáforas de continuidade e resistência dos costumes através do tempo. O tempo é o verdadeiro protagonista. Cada cena parece desconectada da outra, mas não desconexa: cada pessoa presente no filme dá um depoimento à sua maneira sobre a vida ou mostra, em ações, o que o tempo representa.

Fui para a sessão sem saber o que esperar, mas com total disposição para assistir. Particularmente, não gostei: não consegui me conectar com o filme, não consegui entender quem foi a mãe e a conexão da família com os rios. É tudo muito íntimo e subjetivo para quem vê de fora.

Minha questão quanto a isso é que a mensagem de um filme tem que ser para mim também — ou seja, para o público que assiste —, para que se saia da sessão com coisas para pensar e não se esqueça logo em seguida. Cais tem sequências lindas, mas, se fosse visto no mudo, seria apenas uma vídeo-arte como as que se veem em exposições por aí.

Entendo realizadores(as) que têm vontade de fazer uma produção mais intimista e artística hoje em dia, mas também não se pode cobrar do público empatia pelo seu trabalho. Vivemos em um período de informação muito acelerada; as pessoas não têm mais paciência para ver um documentário no cinema, quem dirá um documentário neste formato. É claro que houve pessoas que abandonaram a sessão.

Defendo que os cineastas encontrem o equilíbrio entre fazerem o que querem e entregar o que o público atual gosta. Nós, da comunidade do cinema — sejam realizadores ou cinéfilos —, precisamos do grande público para fortalecer o cinema brasileiro. As pessoas precisam sair recomendando o filme e convidando outras para assistir. Creio que não seja o caso de Cais, pois é uma experiência rápida e pouco provável de se repetir.

Diretora Safira Moreira (dir.) durante o debate após a exibição de Cais no Frapa 2025. Crédito: Alisson Santos/CineNewsPoa

Uma resposta para “XIII FRAPA – Cais”.

  1. Avatar de Capital gaúcha viveu dias de cinema e inspiração com o FRAPA 2025 – CineNewsPoa

    […] na direção de longas-metragens, incluindo Uma em Mil, A Natureza das Coisas Invisíveis, Cais e Nó. Nenhum deles deixou nada a desejar e todos foram bem recebidos pelo público que compareceu […]

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Meu nome é Alisson Santos. Sou natural de Porto Alegre (RS) e nasci em 1996. Jornalista buscando se especializar em críticas de cinema. Neste blog, realizo coberturas de forma independente e compartilho conteúdo informativo sobre filmes, incluindo críticas, entrevistas, cobertura de eventos e outros destaques e informações sobre cinema.

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