O nó invisível da maternidade contemporânea
Em sua estreia nos longas-metragens, Laís Melo entrega em Nó um drama íntimo e contundente sobre os dilemas de uma mãe que busca reconstruir a própria vida após o divórcio. O filme, ambientado em Curitiba, expõe com sensibilidade e tensão os embates entre maternidade, sobrevivência e identidade.
Nó constrói sua narrativa a partir da perspectiva de Glória, interpretada brilhantemente por Patrícia Saravy. A personagem é apresentada em meio a um turbilhão: a separação, a mudança para o centro da cidade, a luta pela guarda das filhas e a disputa por uma promoção no trabalho.
As sequências iniciais do filme na fábrica têm um ar quase documental. Eu estava gostando bastante: Glória descobre um problema de saúde e recebe uma oportunidade de promoção. Pensei que o filme seguiria por esse caminho mais tradicional de roteiro, mas Laís tinha surpresas para revelar e acrescenta mais camadas à trama.
A temática da classe operária e dos subempregos é algo que me interessa bastante e que vivi por quase seis anos da minha vida. Adoro ver essas questões no cinema, principalmente da forma tão verdadeira quanto foi retratada em Nó. O desprezo pelo trabalhador, que mesmo quando recebe a oportunidade de uma promoção não escapa de dinâmicas vexatórias vendidas como se fossem privilégios, está ali: da autorização para usar o banco de horas como se fosse um favor da empresa, até a falsa valorização de conquistas que não mudam a precariedade cotidiana. Tudo isso que a classe operária vive diariamente está presente no filme.
Glória é uma mãe de três meninas e recém-divorciada. Além da jornada diária de CLT e transporte público, precisa lidar com uma série de situações envolvendo o ex-marido, que a vigia na frente do trabalho, o pedido de guarda que ele moveu na justiça e os problemas financeiros de sustentar sozinha as filhas em um apartamento alugado.
Uma coisa que me chamou a atenção também é que as duas filhas mais novas são, na vida real, filhas da atriz Saravy. A autenticidade na relação entre elas estava muito boa, e realmente as interações entre mãe e filhas são o coração do filme, equilibrando momentos de ternura com a dureza das circunstâncias.
Nó é um filme que não busca soluções redentoras, mas sim expor as fissuras da vida cotidiana. Laís Melo faz uma excelente estreia em longas, oferecendo um retrato honesto e doloroso da maternidade contemporânea. Ao final, o espectador não encontra um desfecho simplista, mas a consciência de que os laços que nos sustentam também podem nos aprisionar. É justamente nesse paradoxo que reside a força do filme e a mensagem que ele quer transmitir: transformar a intimidade de uma mulher em espelho coletivo.

Laís Melo (dir.) e Saravy (centro) durante o debate após a exibição de Nó no Frapa 2025. Crédito: Alisson Santos/CineNewsPoa











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