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Valor Sentimental

A vergonha de ser incapaz de se comunicar com aqueles que deveríamos amar

Uma das constantes nos filmes intimistas de Joachim Trier, diretor de Valor Sentimental, é sua capacidade de extrair o melhor de seus atores. Com acuidade emocional, ele explora o interior das pessoas em busca de verdades que parecem conectar, de forma subcutânea, o elenco aos seus personagens. Os atores não interpretam papéis na obra do diretor dinamarquês-norueguês; eles vivem dentro deles. Seu grande sucesso, A Pior Pessoa do Mundo (2022), é ao mesmo tempo uma comédia romântica e uma anti-comédia romântica, um estudo minucioso de uma mulher navegando por um período de transição conturbado, repleto de reflexões intergeracionais e fraquezas com as quais a maioria de nós se identifica em algum momento da vida adulta.

Não importa de onde você venha ou que tipo de vida leve, é provável que tenha dramas familiares. Problemas com o pai, problemas com a mãe, traumas passados em geral — tudo isso faz parte de pertencer a uma família. Valor Sentimental aborda esses elementos quando o renomado diretor Gustav Berg (Stellan Skarsgård) decide dirigir um filme após um hiato de 15 anos e deseja que sua filha, Nora (Renate Reinsve), seja a protagonista.

Nora não tem uma boa relação com o pai, ambos vivem numa guerra fria, com muito para dizer mas sem coragem de verbalizar. Ela não está pronta para perdoar o pai e, por isso, recusa o projeto, acreditando que nunca mais ouvirá falar dele. Em vez disso, descobre indiretamente que o filme seguirá em frente com uma grande estrela americana, Rachel Kemp (Elle Fanning), no papel principal. Para Nora, isso soa como uma traição tão grande quanto teria sido trair a própria mãe.

O centro do filme é a casa centenária da família, um lugar que lembra um chalé de conto de fadas, aninhado entre o verde suave do jardim e com vistas panorâmicas para a cidade de Oslo. Uma casa onde já houve suicídio e nascimento, que já esteve lotada de parentes e amigos, mas que, nos dias atuais, encontra-se desocupada após a morte da esposa de Gustav, a última pessoa que ali residia. A casa é linda e desperta curiosidade, vontade de percorrer seus corredores e conhecê-la, mas encontra-se mal cuidada e cheia de enormes rachaduras internas — uma metáfora evidente para o momento atual da família.

Valor Sentimental se desenrola na presença e na ausência do pai na vida das filhas, no abandono após o divórcio e na tentativa de superação de traumas nunca acompanhados de pedidos de desculpa. Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) é a filha mais nova mas que toma o papel de adulto na sala, Agnes tentou seguir em frente da forma mais “normal” possível, formando cedo sua própria família. Em toda a sua vida, houve apenas um momento em que ela foi o centro do universo do pai: durante as filmagens de um de seus filmes.

À primeira vista, o personagem do pai parece um grande monstro: um homem repugnante tentando se redimir após muitos anos de abandono. Mas não é exatamente assim que o vemos. Gustav carrega um trauma profundo de infância; não busca redenção, mas também não esconde seus erros. O personagem esbanja humor irônico, especialmente em comentários ácidos sobre o momento atual do cinema e dos streamings. Em certo ponto, a seleção de DVDs que ele leva de presente para o aniversário do neto é impagável — seria difícil encontrar filmes menos infantis.

Aqui em Valor Sentimental Trier deslocou seu olhar do amor romântico para o amor familiar, por vezes harmonioso e outras vezes marcado por ressentimento e raiva. A observação do diretor sobre os contratos mutáveis ​​entre irmãs, e ainda mais entre pais e filhas, é comovente em um filme carregado de melancolia, mas também amenizado por toques surpreendentes de humor.

O filme é emocionante e toca no centro de algo profundamente comovente. Talvez nem todos tenhamos pais que sejam diretores famosos, talvez nem todos sejamos atores de teatro com ansiedade, mas todos temos relações complexas com a nossa família. 

A compreensão que Trier demonstra sobre essas relações familiares complexas e sua capacidade de retratá-las com honestidade fazem deste filme mais um sucesso em sua carreira e uma adição sólida à sua filmografia.

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Meu nome é Alisson Santos. Sou natural de Porto Alegre (RS) e nasci em 1996. Jornalista buscando se especializar em críticas de cinema. Neste blog, realizo coberturas de forma independente e compartilho conteúdo informativo sobre filmes, incluindo críticas, entrevistas, cobertura de eventos e outros destaques e informações sobre cinema.

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