Jafar Panahi retorna com um suspense de tirar o fôlego, inspirado em sua própria experiência na prisão

O diretor iraniano Jafar Panahi é um dos cineastas mais importantes e politicamente engajados do cinema contemporâneo. Panahi construiu uma filmografia marcada pelo realismo social, pelo uso de atores não profissionais e por um olhar crítico sobre as restrições impostas à sociedade iraniana, que vive sob um regime teocrático, especialmente às mulheres, como evidenciam grandes filmes como O Espelho (1997) e O Círculo (2000) — este último banido no Irã.

Após apoiar protestos contra o regime em 2009, Panahi foi preso e condenado a seis anos de prisão e a vinte anos de proibição de filmar, escrever, conceder entrevistas e sair do país, mas, mesmo assim, seguiu realizando cinema de forma clandestina, desafiando a censura ao filmar em seu apartamento e contrabandear seus filmes para produtoras na Europa. Panahi foi novamente preso após protestar contra a detenção de colegas cineastas.

Em seu primeiro projeto desde que o regime aparentemente suspendeu as restrições à sua arte, Panahi apresenta Foi Apenas um Acidente —vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2025— inspirando-se nessas experiências carcerárias tão distintas para criar um suspense moral cru e impactante sobre um trabalhador chamado Vahid (Vahid Mobasseri), cujas memórias mais atormentadas vêm à tona quando ele ouve alguém entrar no local em que trabalha com o mesmo rangido assombroso de seu antigo torturador. Impulsivamente, Vahid sequestra o homem, desencadeando uma sequência de acontecimentos que envolve várias pessoas e revive traumas profundos.

Vahid está sedento por vingança, mas o problema é que ele não consegue ter certeza se seu refém é realmente o antigo algoz, um monstro cujo rosto ele nunca viu durante o cativeiro devido aos olhos vendados. Para confirmar sua suspeita, ele coloca o homem em uma caixa de madeira na traseira de sua van e visita um sobrevivente, que o adverte contra essa atitude, sem sucesso, e acaba lhe dando o número de telefone de Shiva (Mariam Afshari), outra mulher brutalizada por um agente do regime.

Foi Apenas um Acidente segue apresentando personagens de personalidades distintas, incluindo um casal que estava tirando fotos para selar o matrimônio no dia seguinte e um homem extremamente raivoso por diversos motivos; todos eles têm um pensamento em comum: o homem sequestrado acabou com suas vidas.

O filme mergulha no dilema ético desses estranhos, presos entre seu desejo ardente de vingança, a incerteza sobre sua potencial vítima e o medo de sucumbir aos seus piores instintos e, no processo, se tornarem aquilo que mais detestam.

Vale lembrar que Foi Apenas um Acidente foi gravado clandestinamente dentro do Irã, nos mesmos moldes de A Semente do Fruto Sagrado (2024), que foi um forte concorrente na última temporada de premiações.

Nas tomadas externas da cidade, vemos a câmera distante ou posicionada dentro de um veículo, mantendo-se escondida. Nas cenas feitas sem correr o perigo de serem descobertos pela polícia do regime, Panahi filma pacientemente, de forma sutil, ao redor de seus personagens, em longos planos-sequência que destacam sua raiva, confusão e dúvidas, enquanto as performances magníficas do elenco capturam uma gama de emoções intensas e conflitantes.

Panahi se recusa a julgar seus protagonistas, compreendendo tanto seu desejo de vingança quanto sua ânsia por paz e compaixão, esta última cada vez mais demonstrada por Vahid, culminando em um belo gesto de bondade perto do fim.

A tensão do filme é amenizada por breves lampejos de humor, alguns dos quais — como os repetidos pedidos para que Vahid e outros paguem gorjetas exorbitantes — abordam de forma incisiva a cultura contemporânea do Irã, marcada não apenas pela crueldade, mas também pela exploração coercitiva e pela falta de políticas públicas.

Foi Apenas um Acidente sustenta seu mistério até o final e, mesmo após isso, entrega um desfecho de tirar o fôlego, digno de permanecer na memória do espectador por muito tempo.

Uma resposta para “Foi apenas um acidente”.

Deixe um comentário

Meu nome é Alisson Santos. Sou natural de Porto Alegre (RS) e nasci em 1996. Jornalista buscando se especializar em críticas de cinema. Neste blog, realizo coberturas de forma independente e compartilho conteúdo informativo sobre filmes, incluindo críticas, entrevistas, cobertura de eventos e outros destaques e informações sobre cinema.

Posts recentes

  • Critics Choice Awards 2026
  • Top 10 2025
  • Foi apenas um acidente
  • Valor Sentimental
  • Especial de Natal 2025
  • Uma Batalha Após a Outra