The Rock estrela a história real de Mark Kerr, um ex-lutador que também lutou contra traumas e dependência química
Coração de Lutador é uma cinebiografia envolvente, crua e peculiar de Benny Safdie sobre um lutador de wrestling, vale-tudo e MMA que, durante a carreira, oscilou entre o calor e a frieza, a passividade e a agressividade, a tranquilidade e a destruição, revelando uma fragilidade muito maior do que seu corpo musculoso. Interpretado por Dwayne Johnson, como conhecemos no cinema o ator “The Rock”, o personagem ganha uma atuação cativante — um tipo de trabalho que ele nunca havia feito ao longo da carreira até agora.
Sendo o primeiro longa-metragem do diretor Benny Safdie feito separadamente de seu irmão Josh, com quem realizou excelentes produções como Bom Comportamento (2017) e Joias Brutas (2019), o filme mantém muito do que tornou o trabalho dos irmãos Safdie tão original: um realismo estilizado e melancólico; um elenco que mistura atores profissionais com pessoas comuns; uma atmosfera sombria, animada por lampejos de humor cru; e histórias conduzidas por protagonistas frequentemente viciados em algo.
Ambientado entre 1997 e 2000, período em que Kerr disputou torneios nos Estados Unidos, Brasil e Japão, com socos, cabeçadas e mata-leões, o roteiro de Safdie destaca como o UFC começou como uma organização marginal, cujas brigas mal remuneradas geralmente terminavam em sangue. A violência era o que tanto repelia quanto atraía o público e, eventualmente, cobra seu preço de Kerr, que pratica artes marciais mistas como uma disciplina que exige treinamento rigoroso, o qual realiza com seu melhor amigo e também lutador de MMA, Mark Coleman, interpretado por Ryan Bader — lutador na vida real que nunca havia atuado em um filme.
Coração de Lutador é coestrelado por Emily Blunt, que interpreta brilhantemente Dawn, a namorada de Kerr, que por vezes acaba sendo agressiva e insistente, mas também solidária e carinhosa quando ele enfrenta momentos realmente difíceis ao longo da narrativa. Dawn é tanto a base da carreira turbulenta do lutador quanto seu calcanhar de Aquiles.
Safdie encena as brigas do casal com a mesma intensidade das que acontecem no ringue, em um filme que alterna entre os golpes brutais que Kerr sofre como lutador profissional e a angústia mental que Dawn lhe causa em casa. Isso não significa que ela seja a única responsável por todo o drama doméstico: Kerr está sob tanta pressão que se torna insuportável, passando de períodos intensos de treinamento a crises de abstinência de opioides. Ainda assim, o filme coloca Blunt em uma situação bastante desfavorável, forçando-a a interpretar uma mulher que parece fazer mais mal do que bem ao homem que ama, apesar de querer ajudar na maior parte do tempo.
Dwayne Johnson nunca havia interpretado um homem vulnerável no cinema, mas sempre foi cativante em filmes de ação que não lhe permitiram demonstrar muita versatilidade. Aqui, ele consegue se aprofundar sem exagerar, conquistando o público com sua bondade, como um guerreiro benevolente que sofre de uma cena para a outra, triunfando brevemente no ringue antes de sucumbir ao vício e/ou à dor amorosa. Como Mickey Rourke em um dos filmes que mais amo na vida, O Lutador (2008) — filme do qual Safdie parece ter se inspirado em alguns aspectos —, Johnson entrega uma mistura inebriante de sangue, suor, lágrimas, proteína e total impotência.
Não é um daqueles filmes inesquecíveis mas a história de Mark Kerr merece sim ser reconhecida, foi uma grata surpresa, adoro o trabalho dos irmãos Safdie e a forma como eles veem o cinema e Dwayne Johnson mostrou que pode muito mais do que usuais blockbusters e iniciar uma nova fase na carreira.










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