Desejo e ambição na noite de Porto Alegre
Ato Noturno é um novo filme gaúcho de drama e thriller erótico, dirigido e roteirizado pela dupla Filipe Matzembacher e Márcio Reolon, já conhecidos no circuito de festivais pela parceria na direção de Tinta Bruta (2018) e Beira-Mar (2015). A produção estreou mundialmente na seção Panorama do Festival de Berlim 2025, onde foi muito bem recebida pela crítica internacional e indicada ao Teddy Award, prêmio dedicado ao cinema queer no festival.
No centro da trama está Matias (Gabriel Faryas), um jovem ator em início de carreira que luta por sua primeira grande oportunidade no teatro em Porto Alegre. Conforme tenta se afirmar em um meio competitivo, Matias se envolve com Rafael (Cirillo Luna), um homem misterioso que ele conhece por um aplicativo de sexo casual e vai encontrá-lo sem sequer ver seu rosto ou saber seu verdadeiro nome. O que pode parecer estranho é uma prática relativamente comum na vida real entre homens, assumidamente homossexuais ou não. Rafael se revela um homem pretensioso, em ascensão, que mantém sua carreira e sua imagem pública em segredo. Juntos, eles vivem um caso intenso e arriscado, marcado por um fetiche por sexo em lugares públicos e pela tensão entre desejo, ambição e autocensura.
Ato Noturno é frequentemente provocador e visualmente envolvente, explorando relações de poder, performance e identidade — tanto no palco quanto fora dele. Os diretores constroem uma narrativa que desafia o espectador a refletir sobre os limites entre desejo e ambição, ao mesmo tempo em que comenta as pressões sociais e expectativas de gênero e sobre o que é preciso para ser socialmente aceito hoje em dia.
O que mais me chamou atenção em Ato Noturno foi a fotografia atmosférica e a estética cuidadosa, com uso expressivo de luzes e sombras, muito vermelho e close-ups, que acentuam a intensidade emocional e erótica das cenas noturnas — um grande trunfo visual do filme.
Ato Noturno tem uma temática ousada e atual, abordando relacionamentos homossexuais, desejo e poder com franqueza, sem suavizar a sexualidade. Particularmente, gostei muito da atuação do protagonista Gabriel Faryas, bastante expressivo e carismático, que frequentemente se vê em situações de risco, nas quais me peguei torcendo por ele.
O ponto fraco é que, apesar do forte apelo visual e da proposta provocadora, o filme perde parte de sua força narrativa à medida que se distancia do impacto inicial, especialmente quando tenta equilibrar elementos de thriller com a exploração do sexo e da política interna dos personagens. O filme acaba se estendendo além do necessário, o que pode tornar a experiência menos satisfatória para espectadores que esperavam uma evolução narrativa mais sólida ao longo da história.
Ato Noturno é um filme que não busca o conforto do espectador, mas sim provocá-lo — seja pelo modo como trata a sexualidade, seja pela maneira como une desejo e ambição em uma narrativa ousada. Artisticamente, sustenta-se pela força visual e pela disposição em explorar territórios pouco frequentados pelo cinema comercial brasileiro, especialmente no contexto do Rio Grande do Sul.










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