Filme em homenagem à memória de Hind Rajab, sua família e as inúmeras vítimas do genocídio em Gaza
Em 29 de janeiro de 2024, o exército israelense ordenou a evacuação do bairro de Tel Al-Hawa, na Faixa de Gaza. Naquele dia, seis membros da família Hamadeh, juntamente com sua sobrinha de seis anos, Hind Rajab, ficaram presos em seu carro após o exército israelense abrir fogo contra eles, matando cinco ocupantes do veículo instantaneamente. Milagrosamente, uma jovem de quinze anos chamada Layan conseguiu ligar para a Cruz Vermelha Palestina e pedir ajuda antes de também sucumbir aos ferimentos. Isso deixou Hind, de seis anos, sozinha no carro, cercada pelos corpos de seus familiares mortos, tendo como única esperança um celular com sinal fraco.
A Voz de Hind Rajab, o mais recente filme da diretora tunisiana Kaouther Ben Hania, que eu conheci pelo excelente O Homem Que Vendeu Sua Pele (2020) e também diretora de Quatro Filhas (2023), ambos indicados ao Oscar, é um comovente docudrama baseado nas conversas telefônicas de Hind com a Cruz Vermelha Palestina enquanto eles se mobilizavam para salvar sua vida.
A diretora escolhe focar exclusivamente no escritório, o que eu considero uma decisão acertada por vários motivos. Para começar, não transforma o sofrimento e o eventual martírio de Hind em um espetáculo sangrento. A escolha de Ben Hania de manter a violência da guerra fora do quadro, ouvida apenas através de rajadas de tiros na linha telefônica, força o espectador a se concentrar no que realmente importa: a vida de Hind. Não há imagens sangrentas para desviar o olhar, como se poderia fazer nas redes sociais. Há apenas a voz dela e os rostos daqueles que estão desesperadamente fazendo tudo o que podem para salvá-la. O espectador, assim como esses trabalhadores da Cruz Vermelha, deve se sentar com Hind e testemunhar seu sofrimento, seus apelos singulares por ajuda, por sua vida.
Conforme a reconstrução se desenrola: no Centro de Atendimento de Emergência do Crescente Vermelho Palestino, Omar (Motaz Malhees) está jogando pedra, papel e tesoura quando recebe uma ligação da Alemanha. Um homem liga em nome de parentes presos em um carro em uma área evacuada pelas Forças de Defesa de Israel naquela manhã. Assim que a ligação é atendida, a primeira voz que ouvimos é a de uma mulher. Em meio a gritos e ao som de tiros, ela é morta.
Todas as ligações telefônicas usadas no filme são áudios reais, e o ar parece sumir da tela sempre que elas são reproduzidas. A principal tarefa dos atores é sentir o que nós sentimos, ouvir como é ser uma pessoa perseguida pela violência. Omar não é mais aquele homem que jogava pedra, papel e tesoura; ele está à beira do abismo. Ele é nós e nós somos ele. Nós também somos seus colegas Rana (Saja Kilani), Mahdi (Amer Hlehel) e Nisrine (Clara Khoury), movidos a fazer tudo ao nosso alcance para responder à voz de Hind Rajab de forma que ela fique bem novamente.
A interação entre o áudio bruto e as reconstruções físicas é conduzida com destreza e discrição. Ben Hania já tem experiência em metaficção, mas neste trabalho a gravidade do tema aguçou ainda mais seu instinto narrativo, de modo que ela conseguiu, simultaneamente, criar espaço para que o áudio seja o cerne da obra, garantindo ao mesmo tempo uma estrutura narrativa suficiente para que ele tenha o máximo impacto e clareza.
A vida de Hind terminou em martírio, e A Voz de Hind Rajab existe não apenas como um chamado urgente para dizer nunca mais ao genocídio, mas também como um convite à reflexão sobre essa violência. Não sobre o derramamento de sangue, não sobre tornar uma vida em uma número. A violência física, mental e administrativa infligida a essa criança que, como tantas outras de sua geração, deveria estar aqui hoje.










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