Drama caótico sobre uma mãe em colapso

Lançado pela produtora A24 e moldado no estilo dos irmãos Safdie, como vemos em Bom Comportamento (2017) ou Joias Brutas (2019), este filme é um retrato do desmoronamento mental e utiliza diversas ferramentas para recriar uma sensação de fim do mundo em uma escala mais íntima. Conta com uma atuação febril e visceral de Rose Byrne, que até então nunca teve na carreira um papel sequer remotamente tão intenso para trabalhar no cinema.

Byrne interpreta Linda, uma mãe que tenta encontrar um tratamento para a doença da filha, que se alimenta por sonda, enquanto lida com um marido ausente, pacientes estranhos em seu trabalho e um enorme buraco no teto que não para de aumentar.

O filme cria tensão imediatamente no início, com um close de Linda em uma sessão de terapia familiar com sua filha, e mantém essa estrutura até o final, tornando-se cada vez mais angustiante — de uma forma não tão “legal” quanto geralmente os irmãos Safdie fazem.

Escrito e dirigido por Mary Bronstein, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é tão imediato e frenético que não oferece nenhum contexto prévio, e Linda começa a desmoronar rapidamente depois disso. Em certa medida, isso acontece porque ela simplesmente atingiu seu limite, e cada obstáculo ou obrigação subsequente — por menor que seja — parece uma montanha para escalar. Bronstein retrata cada cena com o mesmo nível de crise, até que fica difícil dizer se estamos assistindo a uma série de catástrofes isoladas ou a uma única sinfonia ininterrupta de angústia. Uma incerteza mantida pelos ritmos perturbadores do meticuloso design de som do filme, que formam sua própria trilha sonora de angústia ambiente, com aqueles bipes dos aparelhos médicos que não param, a ventania da praia no inverno ou os choros de bebê.

Eu ainda não sou pai, não tenho a menor ideia do que é ser responsável pela vida de outra pessoa, e sei que essa responsabilidade geralmente cai quase 100% sobre as mães, assim como a dificuldade e a pressão social para darem conta de tudo como se fosse fácil. O filme não explica essas pressões, mas nos joga diretamente no fundo do poço com sua protagonista, cujo “trabalho” como mãe de uma criança agitada e com problemas de saúde se torna muito mais importante do que seu trabalho de verdade.

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria não pinta com pinceladas largas nem se refugia na autossatisfação de um empoderamento forçado. Não tem interesse em ensinar lições, mas sim em provocar reflexões. Nos aviões, sempre dizem para colocar primeiro a própria máscara de oxigênio, mas e se você for a emergência?

Ultra-subjetivo, com um design de som angustiante, cortes bruscos e uma cinematografia claustrofóbica para simular a pressão a que sua protagonista está submetida, o filme pode soar hilário para alguns, enquanto outros certamente abandonarão o barco, já que Bronstein nos coloca na posição desconfortável de vivenciar, indiretamente, o colapso nervoso em câmera lenta de Linda. Subjacentes a tudo isso estão reflexões profundas sobre as expectativas que a sociedade impõe às mulheres, sobre como os homens são frequentemente vistos como os estáveis (mas raramente assumem as mesmas responsabilidades) e sobre onde reside a linha tênue entre estresse extremo e doença mental.

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Meu nome é Alisson Santos, natural de Porto Alegre (RS). Sou jornalista em busca de especialização em crítica de cinema. Neste blog, realizo coberturas de forma independente e compartilho conteúdo informativo sobre filmes, incluindo críticas, entrevistas, cobertura de eventos e outros destaques e informações sobre o universo cinematográfico.

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