A comovente história de amor, morte e arte
Hamnet é baseado no livro de 2020 de Maggie O’Farrill. O filme se passa no século XVI e conta a história de Will e Agnes, que criam uma família juntos e enfrentam a mais terrível das tragédias para um casal.
A direção é de Chloe Zhao, que também fez o ótimo Nomadland (2020), e aqui ela confia muito no tempo. Você sente a vida acontecendo: o trabalho cansa, os momentos de alegria duram pouco, a tensão volta como um hábito — a diretora não pula nenhuma etapa. O filme tem muito contato com a natureza; ela adora essas transições com a câmera de baixo para cima, pegando as árvores e o céu.
A protagonista é Agnes, interpretada por Jessie Buckley, uma jovem de espírito livre, amante da natureza e da vida selvagem, com um lado rebelde. Um dia, Will Shakespeare, interpretado por Paul Mescal, entra em sua vida e um caso apaixonado surge entre os dois, o que viria a se tornar um casamento com três filhos.
Como é comum em filmes que retratam essa época, o marido, Will, começa a se sentir frustrado por viver em uma cidade pequena e não poder colocar em prática seus objetivos de vida além de ser um pai de família. Ele vai perseguir seus sonhos de dramaturgo e produtor em Londres, enquanto Agnes permanece em casa com as crianças. A situação fica realmente tensa quando a peste negra se alastra pelo país e uma das filhas do casal fica gravemente doente.
O sobrenome Shakespeare está no filme, mas vira um rodapé — aqui não é sobre o gênio dramaturgo. Inclusive, a história dele é muito mais interessante do que o recorte usado neste filme. O luto é o tema central aqui, claro. Mas também é um filme sobre trabalho: manter a casa funcionando, manter o relacionamento funcionando, e como transformar a dor em algo que caiba no dia seguinte.
Jessie Buckley está realmente muito bem. Ela observa, tem uma cautela e uma solidão de quem recusa os rótulos dos outros. Eu só teria gostado de ver mais coisas sobre ela, uma aproximação maior para poder me conectar melhor com a personagem em seus momentos de dor.
Geralmente eu viro os olhos quando um filme tenta me manipular, tenta me fazer chorar. Sou um pouco cínico para esse tipo de drama, que pressiona o público a gostar — como se, caso você não gostasse, fosse por falta de empatia sua. Gosto quando o filme surpreende ou vai construindo aos poucos a tensão dramática, e não quando é montado com momentos de alegria ou tristeza em forma de montanha-russa.
Eu não queria entrar em spoilers, como a maioria das críticas que vejo por aí, porque acho que, se a pessoa não conhece a vida particular de Shakespeare ou não procurou informações sobre o filme, a tragédia da história vai pegar muito mais forte. Mas, de qualquer forma, é impossível ficar indiferente, principalmente ao ato final. Para alguns foi ou vai ser uma experiência incrível; para outros, apenas um bom filme.
Quando penso em Hamnet de uma forma geral, parece que é um filme de uma hora, e não de duas. Não vi história preenchendo-o do início ao fim. Muita contemplação. Não li o livro, mas vi que ele tem 384 páginas — com certeza havia mais história para tirar dali do que sequências de florestas.










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