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Marty Supreme

Ping-pong, narcisismo e muito caos

O diretor Josh Safdie chega com seu primeiro filme em carreira solo já com status de clássico instantâneo. Josh, que até então sempre assinou a direção de seus longas ao lado do irmão Benny Safdie, com quem fez os excelentes Joias Brutas (2019) e Bom Comportamento (2017). Em 2024, os dois desfizeram a parceria e tomaram novos rumos: Benny apresentando, em 2025, o ótimo The Smashing Machine, e Josh o brilhante Marty Supreme, sobre o qual falarei aqui.

A história, vagamente inspirada no prodígio do tênis de mesa Marty Reisman, é um verdadeiro convite para os espectadores sentirem na pele a ansiedade e embarcarem numa confusão que descamba para a loucura, em que cada vez que Marty busca uma solução para algo acaba piorando tudo duas vezes mais.

É 1952 e o mundo ainda se recupera da bagunça deixada pela Segunda Guerra Mundial; é uma época em que tudo e nada parecem possíveis para as gerações de imigrantes que foram para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor. Embora nunca saibamos exatamente como e quando a família de Marty chegou ao país, o filme sugere que seu jovem e incansável herói sente o peso da história de seu passado, incluindo uma péssima relação com a mãe.

Na melhor atuação de sua excelente carreira até aqui, Timothée Chalamet interpreta Marty, fazendo você querer acreditar e torcer por esse personagem instantaneamente icônico… mesmo que às vezes também queira estrangulá-lo. Marty tem uma autoconfiança injustificável, quase delirante: acha que merece o topo não pelo que fez, mas pelo que acha que é.

Na década de 50, quase ninguém leva o ping-pong a sério; o esporte praticamente não tem uma federação nacional e poucos o considerariam realmente um esporte. Mas Marty está convencido de que o tênis de mesa é a sua vocação e luta incansavelmente por uma chance de prová-lo ao longo de 150 minutos incrivelmente estressantes e inegavelmente emocionantes.

As sequências frenéticas escalam cada vez mais conforme o tempo passa. Marty é egocêntrico e é quase impossível para ele reconhecer que seu sucesso é a soma total das pessoas que ele atropela em seu caminho para alcançá-lo. “De onde eu venho, é cada um por si”, Marty gosta de bradar, ele se considera o protagonista do mundo, e o filme ao seu redor é uma crítica implacável a isso, porém também sensível a esse individualismo mas fazendo-o pagar o preço a todo momento.

Embora seja apresentado como um filme esportivo, o ping-pong quase sempre é coadjuvante na narrativa, e o diretor prefere usar a determinação impulsiva de seu prodígio para espelhar a ascensão do país ao status de superpotência global no pós-guerra — em que o orgulho nacional, o capitalismo e a boa e velha audácia vêm antes de tudo. Enquanto outros poderiam sofrer de complexo de inferioridade ou síndrome do impostor, Marty tem uma fé cega em sua capacidade de retribuir o que a vida lhe reserva. O cara consegue se safar de praticamente qualquer enrascada.

Além da atuação primorosa de Timothée Chalamet, também temos um elenco de apoio muito inspirado, incluindo a amiga e vizinha Rachel (Odessa A’zion), que é casada com um homem abusivo, mas claramente está apaixonada pelo cativante Marty. Kay Stone (Gwyneth Paltrow) vive uma famosa atriz já fora do estrelato, e seu marido Milton Rockwell é interpretado por Kevin O’Leary, do programa Shark Tank, que até hoje nunca havia atuado como ator. Também temos boas sequências com o rapper Tyler, The Creator, que interpreta Wally, um taxista amigo de Marty e parceiro de golpes no ping-pong.

Uma forma simplificada de descrever o filme seria algo como “Joias Brutas com ping-pong”, e os dois filmes compartilham uma linguagem cinematográfica que busca impactar o espectador. Ainda assim, este filme não é um mero eco da antiga colaboração de sucesso de Safdie com seu irmão. É diferente de tudo o que foi lançado nesta temporada de premiações: um estudo fascinante de um homem que acredita piamente em seu propósito.

Marty Supreme vai te fazer rir, te deixar irritado, ansioso ou emocionado, dependendo da cena. É uma montanha-russa — assim como é a vida de Marty —, tudo muito bem montado pelo diretor Josh Safdie e que, sem dúvida, vale a pena assistir.

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Meu nome é Alisson Santos, natural de Porto Alegre (RS). Sou jornalista em busca de especialização em crítica de cinema. Neste blog, realizo coberturas de forma independente e compartilho conteúdo informativo sobre filmes, incluindo críticas, entrevistas, cobertura de eventos e outros destaques e informações sobre o universo cinematográfico.

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