Cinebiografias e a problemática do “filme legado”

A busca por romantizar a carreira de artistas ou puro medo de afastar o público que não os conhece, talvez podem ser motivos que levam as atuais cinebiografias de músicos e celebridades estarem indo de mal a pior em relação a bilheteria e aceitação do público. 

Tentativa de assassinato, perseguição política, e exílio, Bob Marley tem uma história digna de filme, essas e tantas outras questões como a religião rastafari e a vida pessoal movimentada, seriam um enredo pra uma produção de dar o que falar em todo o mundo.

Mas One Love é o que a internet começou a chamar de “filme wikipédia”, segue uma linha temporal contando de forma breve alguns acontecimentos que foram muito importantes na vida de Bob Marley, porém de forma breve e com pouca carga dramática na interpretação do ator Kingsley Ben-Adir. O filme foge de assuntos problemáticos e coloca Bob como se fosse um herói em boa parte do tempo, a música é usada como escape para evitar situações onde seria preciso desenvolver um tema mais complicado.

Em Back to Black tudo ocorre de forma muito pior, o filme biográfico de Amy Winehouse não mostra uma explicação ou ordem cronológica dos fatos, o espectador precisa deduzir quanto tempo passou entre uma sequência e outra, em grande parte as músicas de Amy são usadas como passagem de tempo. 

O filme não consegue transmitir a empolgação e a eletricidade que Amy carregava em sua personalidade, estava evidente o empenho da atriz Marisa Abela no papel, que cantou todas as músicas e tentou o melhor que pode para imitar os trejeitos de Amy, mas não era suficiente para sustentar um filme tão vazio de roteiro. Back to Black ainda coloca o pai de Amy, uma pessoa controversa em sua história, como alguém ingênuo em relação a coisas que sua filha fazia, e também parece inocentar de culpa o ex-namorado Blake, alguém que muitos culpam por ser o causador do declínio da vida de Amy e do vício em drogas e álcool.

Ambos os filmes parecem não saber por onde começar ou onde terminar, expõem questões como o fato deles nunca terem tido interesse em fazer música por dinheiro mais de uma vez, o que torna repetitivo e claramente forçado. Além disso, o público não quer ver performance artísticas demasiadas, isso tem aos montes pela internet dos verdadeiros artistas, as pessoas assistem esperando saber algo novo, ver como era a vida do seu ídolo, mas aqui o show é prioridade o tempo todo.

A porta que Bohemian Rhapsody abriu em 2018 parece não ter mais data para ser fechada, enquanto isso, vemos no exterior e também aqui no Brasil cada vez mais filmes forçados e pouco coesos, que distorcem fatos de pessoas que tiveram uma vida pública conhecida por todos.

A boa história é aquela que ganha o público onde menos se espera.

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Meu nome é Alisson Santos. Sou natural de Porto Alegre (RS) e nasci em 1996. Jornalista buscando se especializar em críticas de cinema. Neste blog, realizo coberturas de forma independente e compartilho conteúdo informativo sobre filmes, incluindo críticas, entrevistas, cobertura de eventos e outros destaques e informações sobre cinema.

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