Mesmo com a incerteza pós-enchente, o maior festival do gênero na América Latina foi um sucesso em Porto Alegre
A 12ª edição do FRAPA – Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre, ocorreu entre os dias 4 a 8 de novembro na Casa de Cultura Mario Quintana. Mas a programação do festival em 2024 está diferente e conta com atividades entre outubro, novembro e dezembro, dentro da Mostra FRAPA.
Os cinco dias de evento contaram com mesas de debate, masterclasses, pitchings, exibições de curtas e longas. Segundo a organização, mais de 900 projetos foram inscritos nos Concursos de Roteiros e Argumentos, além de diversas rodadas de negócios que ocorreram entre os participantes credenciados e os players, representantes de grandes empresas do audiovisual que vieram também para Porto Alegre em busca de novos talentos e bons projetos apresentados pelos roteiristas. Estiveram presentes no FRAPA executivos da Globoplay, Prime Video, MAX e diversas outras empresas criadores e distribuidoras de conteúdo audiovisual.
Os sócios-idealizadores, Leo Garcia e Mariana Mêmis Muller, comentaram durante a abertura que essa foi sem dúvida a edição mais difícil de organizar. Mesmo já tendo um cronograma pronto e participações confirmadas, a enchente que devastou boa parte do Rio Grande do Sul acabou afetando diretamente também o festival, pois ficamos por meses com o aeroporto Salgado Filho fechado e a Casa de Cultura Mario Quintana, que sempre hospedou o festival, acabou extremamente danificada em virtude dos alagamentos.
A sócia-idealizadora e produtora executiva do FRAPA, Mariana Muller, comentou durante a cerimônia de abertura que apesar de toda a incerteza ao longo do ano, a organização nunca pensou em tirar o evento da CCMQ, por entender que ali é a casa do FRAPA, e faz parte da identidade do festival, pois foi dentro dos auditórios, teatros e salas de cinema da Casa de Cultura que ocorreram todas as edições do FRAPA até hoje.
Apesar das adversidades, o evento ocorreu muito bem, de forma organizada e sempre cumprindo os horários determinados. Os participantes credenciados de diversas partes do Brasil e também alguns de outros países, compareceram e lotaram diversas das atividades que ocorreram durante a semana. Além do público local de Porto Alegre e região que também prestigiou as sessões abertas ao público.
Durante a semana do festival eu assisti todos os longas e curtas que estavam sendo exibidos na Mostra FRAPA, cinco filmes já tem post aqui no site, vou comentar sobre outras produções que me chamaram atenção mais abaixo. Primeiro gostaria de destacar alguns eventos que aconteceram e outras sessões que ainda vão ocorrer em Porto Alegre.
O roteirista do filme Maníaco do Parque (2024), L.G. Bayão, esteve no FRAPA para divulgar e conversar sobre o desenvolvimento do projeto, numa das salas da Cinemateca Paulo Amorim, que estava cheia de roteiristas. Bayão falou sobre como foi trabalhar em cima de uma história tão cruel e que afetou a vida de tantas vítimas e suas famílias. Ele comenta que fez uma grande pesquisa para começar a escrever, e que foi um período denso em sua vida, pois se aprofundar naquelas histórias reais e saber mais sobre tudo que envolviam os casos foram tornando sua rotina muito pesada.
Sob esse ponto de ser um projeto baseado em histórias reais e difícil de trabalhar, perguntei para Bayão sobre quanto tempo ele levou para concluir suas pesquisas e escrever o roteiro. Ele responde dizendo que foi quase um ano e meio de trabalho, entre as pesquisas e tentativas de escrever o roteiro, mas que considera um prazo justo devido a quantidade de informações e diversas histórias que precisava apurar.

Também perguntei se Bayão teve contato com o próprio assassino, Francisco de Assis Pereira, e ele respondeu que preferiu não ter, pois Francisco é uma pessoa dissimulada, extremamente hábil, que podia enganar como enganou tanta gente, e ele não queria correr esse risco enquanto estava escrevendo. Mas também comenta que existem muitos registros de depoimentos de quando Francisco foi pego, além de, diversos outros conteúdos de entrevista onde Francisco fala sobre si. Bayão considera o material luxuoso de uma forma que ele nunca havia visto em projetos em que trabalhou antes.
Bayão comenta também que não teve contato direto com as vítimas porque não era o foco expor a história delas, e explorar um trauma que viveram para render boas cenas.
Outro evento que participei e achei muito interativo, ao mesmo tempo que técnico em diversas abordagens, foi a masterclass ministrada por Maíra Oliveira: “Narradores não confiáveis e voice over: disrupções na narrativa audiovisual contemporânea”.
Durante sua apresentação, Maíra trouxe exemplos de diversas produções com uso de voice over, de forma boa ou ruim, avaliando a utilização e interagindo com a sala de cinema lotada que assistia a sua masterclass. Também houve espaço para perguntas e os credenciados puderam tirar dúvidas a respeito desse uso de narrativa dentro de roteiros. Considero a melhor atividade que pude acompanhar durante o festival.

Na sexta-feira (08/11) foram divulgados os vencedores desta edição, os roteiros vencedores foram: Malu Tatu (longa-metragem) de Débora Resendes e Milena Ribeiro, Goiânia/GO; Nós Viemos em Paz (piloto de série) de Igor Machado Peres, Brasília/DF; e Ouro do Mar (melhor argumento) de Jotta Amancio, Fortaleza/CE.
Os 11 curtas que fizeram parte da Mostra FRAPA esse ano estavam concorrendo em cinco categorias de premiação, os longas foram apenas sessões de exibição seguidas de debate com seus roteiristas.
Os vencedores foram: melhor roteiro, Fenda (CE) de Lis Paim; roteiro pelo Júri Popular e Diálogo, Pequenas Insurreições (PR) de William de Oliveira; melhor cena, A Menina e o Pote (PE) de Valentina Homem, Eva Randolph, Francy Baniwa, Nara Normande e Tati Bond.
Melhor final, Boi de Conchas (SP/EUA) de Daniel Barosa; melhor título, Pirenopolynda (GO/DF/CE) de Bruno Victor, Izzi Vitório e Tita Maravilha.
Eu destaco também o curta gaúcho Pastrana (2024), de Gabriel Motta e Melissa Brogni. A partir da narração de Melissa, o curta revive memórias e imagens do skatista de downhill Allysson Nascimento, apelidado Pastrana, falecido em acidente durante uma competição em 2018. À medida que ela recupera o passado, com a ajuda de seus amigos, a presença inerente de Pastrana a ajuda a preencher o silêncio deixado para trás e obter uma compreensão mais profunda do tempo.
Em minha opinião, a curadoria de curtas este ano, encabeçada pelo produtor do FRAPA Jeferson Silva, trouxe uma diversidade muito boa de produções, destaco os curtas do segundo dia de exibição, todos envolvendo uma temática de luto e a forma de lidar com as perdas da vida, os curtas foram: Paraiso Europa (2023), Pastrana (2024), Boi de Conchas (2024), Yãmî Yah-Pá – Fim da Noite (2023), Vão das Almas (2023), A Menina e o Pote (2024).
A Mostra FRAPA segue em Porto Alegre até 14 de dezembro, com sessões especiais e gratuitas para o público em diversos pontos da cidade, veja as datas e locais:
24/11 – 16h – Praça André Forster – Bizarros Peixes das Fossas Abissais
24/11 – 18h – Praça André Forster – Estranho Caminho
01/12 – 15h – Esplanada da Restinga – O Dia que te Conheci
01/12 – 17h – Esplanada da Restinga – A Filha do Palhaço
14/12 – 15h – Praça dos Açorianos (Ponte de Pedra) – Oeste Outra Vez
14/12 – 17h -Praça dos Açorianos (Ponte de Pedra) – A Transformação de Canuto











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