Relembrar para não repetir

Sensação de vazio, frio na barriga, medo. Ainda Estou Aqui é, na minha opinião, o melhor filme da carreira de Walter Salles, trazendo de forma chocante as angústias de uma família frente à dor e incerteza de esperar um pai retornar dos porões da ditadura.

Muitos filmes grandiosos foram feitos sobre os 21 anos de ditadura militar no Brasil, de 1964 a 1985, assim como sobre regimes opressivos semelhantes em países sul-americanos vizinhos como Chile, Argentina e Uruguai. Os abusos dos direitos humanos mediante tortura, assassinato e desaparecimentos forçados representam uma ferida aberta na história dessas nações, para as quais o cinema muitas vezes serviu como um veículo para a memória coletiva da sociedade, relembrando um passado sombrio, que é nosso dever nunca mais baixar se repetir. 

Rubens Paiva, interpretado por Selton Melo, foi um engenheiro civil e deputado federal eleito por São Paulo, em 1962. Desde o início sempre foi um ativista contrário ao movimento do golpe militar que se encaminhava no Brasil, fazendo discursos acalorados para que trabalhadores e estudantes defendessem a legalidade.

Rubens precisou se exilar fora do Brasil por quase um ano. Ao voltar, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde voltou a exercer a profissão de engenheiro, mas sempre fazendo contatos com os exilados. 

Acompanhamos a história da família Paiva pela percepção da esposa de Rubens, Eunice Paiva, brilhantemente interpretada por Fernanda Torres. Uma mulher que não pode mostrar os seus sentimentos, precisa estar controlada o tempo todo para passar tranquilidade para seus filhos, que repentinamente veem sua casa que antes era aberta e cheia de vida, agora, fechada e escura com a presença de homens estranhos por toda a parte, além do sumiço de seu pai.

Ainda Estou Aqui não mostra violência para retratar o período histórico em que se passa, mas sim, o que a violência causava na vida das pessoas, o medo e a apreensão de ter um parente desaparecido. 

O impacto é gerado através da ausência, trazendo sensibilidade em uma temática que é difícil de lidar. O público acompanhava em silêncio a cada sequência que se passava, não só pela tensão na trama, mas também um sinal de respeito pela produção, por ser uma história real, de um período tão próximo de nós. 

O sucesso de Ainda Estou Aqui, para mim, não depende das premiações que está conquistando e para as quais está sendo indicado. Um reconhecimento no Oscar é justo, e todos torcemos por isso. Mas o grande feito dele é ser bom como uma produção cinematográfica brasileira de excelência, levando quase 2 milhões de brasileiros ao cinema, e resgatando a memória do nosso país para uma época que devemos sempre relembrar para não repetir.

5 respostas a “Ainda Estou Aqui (2024)”

  1. […] do Oscar. O grande vencedor foi Anora, com cinco prêmios em seis indicações. O filme brasileiro Ainda Estou Aqui levou a estatueta de Melhor Filme […]

  2. […] muito longe da abordagem mais imponente e clássica de Ainda Estou Aqui (2024), de Walter Salles — uma obra que só é útil como comparação porque chegou onde O Agente […]

  3. […] os costumes e lidera a família dentro de casa. Me fez lembrar um pouco a Fernanda Torres em Ainda Estou Aqui, na relação com as […]

  4. […] e Melhor Atriz em Filme de Drama (Fernanda Montenegro), levou somente a primeira. Já em 2025, Ainda Estou Aqui foi indicado a duas categorias, mas venceu só em melhor atriz em filme dramático (Fernanda […]

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