Quando ser amado se torna um pesadelo
Começou outubro, que, além do choque de realidade por mostrar que faltam apenas três meses para terminar mais um ano, traz também o querido Halloween lá no seu último dia. Porém, todos os outros trinta dias deste mês, até a culminação do dia 31, são repletos de conteúdos sobre filmes de terror nas redes sociais, especialmente no Letterboxd, seja sobre filmes novos ou antigos para celebrar o gênero que é tão querido por muitos de nós que amam cinema.
Para começar os conteúdos do mês por aqui, trago um filme novo, mas também já não tão novo assim, pois estreou nos cinemas em maio. Muita gente já assistiu devido à sua grande repercussão, mas quero fazer algumas observações sem spoilers para convencer especialmente aqueles que ainda não assistiram.
Com uma premissa que parte do velho princípio de que é preciso ter cuidado com aquilo que se deseja, Obsessão encontra no amor possessivo o ponto de partida para construir um terror psicológico que transita entre o sobrenatural, o humor ácido e situações cada vez mais desconfortáveis.
No filme, Bear (Michael Johnston) anseia silenciosamente e desesperadamente por sua melhor amiga e colega de trabalho, Nikki (Inde Navarrette). Porém, ele é péssimo em relacionamentos e nunca sabe verbalizar seus sentimentos. No dia em que uma tragédia pessoal acontece e mais uma tentativa de se declarar fracassa, ele faz um pedido a um brinquedo de uma loja mística para que ela tenha um afeto eterno por ele.
O filme trabalha com uma ideia bastante conhecida dentro do terror — o desejo que se transforma em maldição —, mas encontra uma maneira interessante de aproximá-la de uma discussão contemporânea sobre relacionamentos. Afinal, até que ponto alguém pode desejar ser amado sem se importar com a liberdade do outro? A obsessão, nesse caso, não está apenas relacionada ao comportamento de uma pessoa, mas à própria ideia de transformar sentimentos em algo que pode ser controlado.
O diretor e roteirista do filme é Curry Barker, que chamou atenção online com seus vídeos de comédia afiados e um tanto sombrios no seu canal no YouTube, tornando-o conhecido na internet, especialmente nos Estados Unidos. Um dos pontos positivos no seu primeiro longa-metragem para o mainstream é justamente a maneira como Barker evita estabelecer uma separação rígida entre terror e humor. Algumas situações possuem um certo absurdo que provoca o riso, enquanto outras gradualmente assumem um caráter mais perturbador. Essa mudança de tom contribui para criar uma atmosfera de estranhamento, especialmente porque o que inicialmente parece uma fantasia romântica passa a adquirir contornos cada vez mais sombrios.
O principal destaque do elenco, sem dúvida, é Inde Navarrette. A atriz consegue acompanhar a transformação de sua personagem ao longo da narrativa sem depender apenas de uma interpretação exagerada para transmitir o desconforto provocado pela situação. Navarrette encontra diferentes nuances para uma personagem que precisa transitar entre momentos de vulnerabilidade, intensidade e estranhamento, contribuindo para que a obsessão retratada pelo filme não pareça apenas um recurso narrativo, mas também uma experiência emocionalmente desconfortável. É uma atuação que ganha força justamente por não entregar todas as suas intenções de imediato e ajuda a sustentar a atmosfera cada vez mais perturbadora.
O longa também se beneficia de uma estrutura relativamente simples. Em vez de depender de uma mitologia sobrenatural excessivamente elaborada, Obsessão concentra sua atenção nos personagens e nas consequências de uma escolha. A simplicidade da premissa permite que o filme desenvolva seu principal tema sem precisar transformar a narrativa em uma sucessão de explicações.
Para mim, o filme funcionou muito bem justamente por compreender que o horror não precisa necessariamente nascer de uma criatura ou de uma ameaça desconhecida. Às vezes, ele pode surgir de algo aparentemente desejável: ser amado. Ao transformar o desejo romântico em fonte de medo, Curry Barker constrói um terror pequeno em escala, mas eficiente na maneira como transforma uma fantasia amorosa em uma experiência cada vez mais desconfortável.
A repercussão do filme, entretanto, acabou sendo muito maior do que se poderia imaginar a partir de sua produção independente. Realizado com um orçamento estimado em apenas 750 mil dólares, o longa foi exibido no Festival de Toronto de 2025 antes de ser adquirido pela produtora Focus Features por cerca de 15 milhões de dólares. O sucesso cresceu após o lançamento comercial em maio deste ano, impulsionado principalmente pelo boca a boca: o filme alcançou mais de 519 milhões de dólares nas bilheterias mundiais, um retorno superior a 680 vezes de seu orçamento. O desempenho transformou Obsessão em um dos grandes fenômenos do terror recente e no maior sucesso da história da Focus Features, algo particularmente impressionante considerando sua origem como um filme de baixo orçamento.
Esse sucesso também ajuda a compreender o momento vivido pelo cinema de terror. Barker chegou ao longa vindo do YouTube, e Obsessão se tornou um exemplo de como cineastas que constroem público na internet podem levar essa audiência para as salas de cinema, caso bem parecido com Kane Parsons e seu ótimo filme Backrooms. Mais do que uma curiosidade da indústria cinematográfica, o caso demonstra que produções de baixo orçamento ainda podem encontrar enorme repercussão quando apresentam uma ideia original e conseguem estabelecer uma conexão direta com o público.
Mais do que uma história sobre conseguir o amor de alguém, Obsessão é um filme sobre o perigo de confundir amor com posse. Uma premissa conhecida que ganha nova força ao colocar o espectador diante de uma pergunta simples, mas inquietante: de que adianta ser amado quando esse sentimento deixa de ser uma escolha? Tire suas próprias conclusões sobre quem é o vilão da história.
O filme está disponível para aluguel no YouTube, Prime Video e Apple TV.










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