Uma caso extraordinário de fotojornalismo, repressão política e preservação da memória

Uma sessão especial de estreia do documentário que conta parte da vida de Aurelio González, promovida pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (SindJoRS) e pela Associação Riograndense de Imprensa (ARI), lotou nesta segunda-feira (31/08) o CineBancários, em Porto Alegre, sendo aberta até uma sessão extra pela organização para que todo o público que compareceu pudesse ver o filme.

Aurelio González é um fotojornalista de uma trajetória fantástica, quase que literalmente. Nasceu no Marrocos e, ainda criança, sua família se mudou para a Espanha. González se dizia um jovem inquieto, anarquista, enquanto seus pais seguiam costumes rígidos que eram normais para a época. Ao chegar aos 21 anos, idade em que era obrigatório prestar serviço militar na Espanha, González fugiu sozinho, entrando clandestinamente em um navio que partia para a América do Sul. Quase foi jogado ao mar pelo capitão, que temia que ele fosse um assassino em fuga; quase foi entregue no Rio de Janeiro para ser preso e deportado, mas, graças ao imediato do navio, que acreditou na sua história, foi deixado no Uruguai, país que exigia menos documentação para estrangeiros. Foi lá que González viria a se tornar um fotojornalista que acompanhou de perto a deterioração política do país durante os anos que antecederam o golpe de Estado de 1973.

Este é o início do documentário em curta-metragem, no qual o próprio González, no auge de seus 94 anos, conta, com lucidez, fatos que marcaram sua vida. Uma vida, em parte, dura e complicada. González morou nas ruas de Montevidéu nas suas primeiras semanas no novo país, em 1952, até encontrar um clube social espanhol antifranquista, onde recebeu apoio e aprendeu o ofício da fotografia. Um tanto humilde e bem-humorado, González conta como fotografou manifestações, conflitos políticos, movimentos sociais e, principalmente, a greve geral de resistência ao golpe militar.

González, ao longo de sua carreira, produziu aproximadamente 70 mil fotografias. E é aí que começa a parte mais impressionante da história. Quando a repressão se intensificou, ele percebeu que seu acervo corria sério risco de ser confiscado ou destruído. Antes de conseguir mover seu material para outro lugar, em um dia, ao chegar para trabalhar, seu chefe avisou que os militares estavam indo ao Edifício Lapido, local no centro de Montevidéu onde ficava a redação do jornal El Popular, para fechar o jornal. González conseguiu guardar centenas de negativos dentro de uma mochila e saiu pelo prédio procurando um lugar para escondê-los, deixando parte do material no fosso do elevador. A intenção era simples: se a ditadura não encontrasse os negativos, não poderia apagar aquelas imagens da história.

González acabou sendo perseguido pelo regime, preso e interrogado, e precisou deixar o Uruguai, partindo para uma década de exílio, inicialmente no México. Durante décadas, entretanto, aqueles negativos permaneceram escondidos..

Quando González voltou ao Uruguai, em 1985, uma das primeiras coisas que fez foi tentar recuperar os negativos que havia escondido no edifício. Só que o prédio havia passado por sucessivas reformas durante a ditadura, alterando justamente a estrutura onde ele havia escondido o material. Ele entrou no prédio, procurou o local e constatou que os negativos não estavam mais onde deveriam. E aí começa a parte mais curiosa da história…

Durante as obras no prédio, os operários encontraram o material e, percebendo que aquilo era algo importante, em vez de simplesmente jogarem fora, esconderam novamente as latas de filme — desta vez atrás de uma parede falsa no subsolo. González ficou mais de 33 anos sem saber do paradeiro de boa parte do material de sua carreira, até que, ao receber uma homenagem no Centro de Fotografia de Montevidéu, em 2006, contou a história a outros fotógrafos, que passaram a procurar as latas de negativos.

Uma pessoa acabou dando ao Centro uma pista sobre latas antigas encontradas no prédio. Foi assim que chegaram ao local. Os negativos estavam em um duto de ventilação praticamente inacessível. Para retirá-los, eles tiveram que usar um ímã preso a uma corda, “pescando” as latas uma por uma.

Essa é a principal história, mas não a única. Então, sem dúvida, vale a pena ver e conferir González contar tudo isso com suas próprias palavras e simpátia.

Falando mais sobre o filme, a produção é dos gaúchos Itamar Aguiar, Marco Villalobos, Milton Cougo e Zé Carlos de Andrade, com colaboração da jornalista uruguaia Amalia Antúnez. A produção estreou em Montevidéu, em julho de 2026, e agora chega ao Brasil.

A história de Aurelio González chegou até esse grupo de fotógrafos e jornalistas do Rio Grande do Sul por uma relação pessoal e profissional anterior, e não simplesmente porque eles decidiram fazer um filme sobre um personagem uruguaio.

O ponto central é Marco Villalobos, que já conhecia González havia bastante tempo e tinha o desejo de produzir um trabalho sobre a trajetória dele. Quando o projeto finalmente tomou forma, ele reuniu os outros profissionais gaúchos e a jornalista uruguaia Amalia Antúnez. Inclusive, isso ajuda a entender por que a estreia brasileira aconteceu justamente em Porto Alegre, sendo promovida por nossas entidades locais de jornalismo.

Após a exibição, ocorreu um debate com Aurelio González e a equipe do documentário. González demonstrou sua imensa gratidão ao povo de Porto Alegre, cidade onde afirma ter sido sempre muito bem recebido, e comentou sobre a produção:

“Me emociona muito ver esta sala cheia, não por ser um filme que é sobre mim, mas por todo o interesse que as pessoas ainda têm por essa história. Afinal, o velho ditado precisa sempre continuar sendo posto em prática: ‘relembrar para não repetir’. Foi muita gente desaparecida, muitas famílias sofreram, mas nós temos salva toda a memória de nossa luta naquele período sombrio. Todos devemos relembrar sempre, como fazemos no Uruguai todos os anos, no dia 20 de maio.”

O nome do documentário, O fotógrafo que escondeu e salvou a história, é praticamente uma síntese do que aconteceu. González não simplesmente escondeu fotografias; ele percebeu que aquelas fotografias poderiam ser destruídas justamente porque continham uma versão dos acontecimentos que o regime não queria que sobrevivesse. Então, esconder os negativos foi, de certa forma, um ato jornalístico e político. E existe uma ironia muito bonita: a fotografia, que normalmente serve para tornar algo visível, precisou ser escondida para sobreviver.

Aurelio González e a equipe de O fotógrafo que escondeu e salvou a história durante o debate realizado após a sessão no CineBancários, na segunda-feira (31/08). Crédito: Alisson Santos/CineNewsPoa.

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