O filme clandestino de Mohammad Rasoulof

Por mais de duas décadas, Iman (Misagh Zare) atuou como funcionário público, realizando um trabalho do qual suas filhas – que representam a geração mais jovem do Irã – teriam vergonha. Melhor mantê-las no escuro. Por fim, por sua lealdade, Iman recebeu uma promoção, não para julgar (o trabalho que ele quer), mas para inspetor (um trabalho que ninguém quer). Os inspetores são os capangas que interrogam os alunos da idade de suas filhas quando são presos por protestar, aqueles que assinam sentenças de morte para supostos dissidentes. Iman não trabalha apenas para o regime iraniano; ele é o regime.

Durante a maior parte do filme, o personagem principal não é Iman, mas sim sua esposa submissa e cumpridora das regras, Najmeh (Soheila Golestani), uma mulher que respeita os costumes e lidera a família dentro de casa. Me fez lembrar um pouco a Fernanda Torres em Ainda Estou Aqui, na relação com as filhas.

O diretor Rasoulof constrói uma narrativa pesada com caráter de forte denúncia do regime totalitário de seu país, que abafa protestos violentamente e manipula o fluxo de informações para minimizar a verdade. Mais especificamente, o diretor intercala filmagens reais com outras fontes das agitações e protestos civis por todo o país em 2022 e 2023, após a morte da jovem Mahsa Amini, que estava sob custódia policial por supostamente ter usado o véu de forma inadequada.

A Semente do Fruto Sagrado surgiu do encarceramento de Rasoulof em 2022 – bem no auge do levante feminino no país, que a morte de Amini inspirou – na prisão em Teerã, onde ele foi preso por se manifestar contra o governo iraniano. Rasoulof escreveu o roteiro e, após ser libertado depois de quase um ano preso, começou as filmagens deste filme inteiramente em segredo pelas ruas da cidade, onde ele e a equipe sabiam que podiam estar correndo risco de vida.

No filme, Iman está sofrendo grande pressão devido ao novo cargo e à onda de protestos que o país está enfrentando, podendo ser investigado e perseguido por grupos contrários ao governo. Iman recebe uma arma para se proteger, mas ele não é do meio militar, não tem o costume de andar armado ou sequer deve saber atirar. As coisas tomam um rumo dramático quando a arma desaparece. Se seus superiores descobrirem, Iman não apenas perderia sua cobiçada posição, mas acabaria publicamente envergonhado com uma sentença de três anos de prisão.

O que vemos a seguir é uma espiral de acusações e contradições que vão destruindo uma família, um thriller doméstico imprevisível onde o pessoal é sempre político.

A Semente do Fruto Sagrado é um retrato incisivo do Irã moderno, onde a sociedade questiona cada vez mais o regime teocrático e as mulheres lutam por direitos básicos, em que cada pequena vitória conta muito.

Uma resposta para “A Semente do Fruto Sagrado (2024)”.

  1. Avatar de Foi apenas um acidente – CineNewsPoa

    […] que Foi Apenas um Acidente foi gravado clandestinamente dentro do Irã, nos mesmos moldes de A Semente do Fruto Sagrado (2024), que foi um forte concorrente na última temporada de […]

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Meu nome é Alisson Santos. Sou natural de Porto Alegre (RS) e nasci em 1996. Jornalista buscando se especializar em críticas de cinema. Neste blog, realizo coberturas de forma independente e compartilho conteúdo informativo sobre filmes, incluindo críticas, entrevistas, cobertura de eventos e outros destaques e informações sobre cinema.

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