Entre o Ritual e a Resistência
A 14ª Bienal do Mercosul, que ocorre em diversos museus e espaços culturais de Porto Alegre, também traz uma mostra de cinema à cidade, com documentários de temática social no Brasil. Todas as sessões são gratuitas, assim como a visita aos espaços que recebem as exposições da Bienal.
O documentário A Queda do Céu, dirigido por Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, é um testemunho visual de uma luta que ressoa com urgência há algum tempo no Brasil. Acompanhando depoimentos de Davi Kopenawa, líder yanomami e xamã, o filme não apenas dá voz ao povo indígena, como também acompanha seus costumes e sua espiritualidade.
A produção não se limitou a um olhar externo sobre a cultura yanomami. Os documentaristas entraram e conviveram com o povo originário, a narrativa se constrói a partir da vivência deles e dos ritos que sustentam o seu mundo espiritual, a equipe parece não interferir durante as gravações, especialmente durante o ritual chamado “Reahu”, onde os yanomami travam uma batalha simbólica para evitar que o céu desabe.
Confesso que não foi um filme fácil para mim. Ao contrário de documentários tradicionais sobre povos indígenas, este não explica, não dialoga. O filme exige que o espectador se entregue à cosmologia yanomami, que compreenda os gestos, os cantos e os silêncios como parte de uma comunicação profunda com o ambiente. Ao fazer isso, os diretores afastam-se da estética antropológica para apostar em uma linguagem que valoriza a autonomia das imagens e dos sons.
O problema mora aí: um filme que demanda entrega e paciência pode enfrentar barreiras de recepção. Vivemos em um período de informação rápida, em que a maioria das pessoas já não tem paciência para acompanhar produções de baixo dinamismo, quem dirá uma que apresenta esse tipo de abertura por cerca de dez minutos.
Surpreendentemente, reparei que as pessoas na sessão, quase lotada, pareciam bem conectadas com a história. Então, talvez o principal propósito do documentário tenha sido atingido—fazer o público pausar, ouvir e sentir.
Com A Queda do Céu, a floresta fala, o povo fala. E, diante do avanço destrutivo do meio ambiente, a voz dos yanomami ecoa como um lembrete: o fim não é uma metáfora distante. O céu pode, de fato, cair.











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