Gentrificação e identidade: O grito do Vale do Anhangabaú

O cinema documental tem a missão de capturar camadas invisíveis da sociedade, denunciar opressões e resgatar memórias. Quando aborda algum desses temas, o potencial e a expectativa aumentam significativamente. Anhangabaú (2023), dirigido por Lufe Bollini, destaca-se como uma obra que retrata a resistência urbana de artistas e de uma comunidade indígena Guarani Mbya. A cidade de São Paulo, palco de inúmeras disputas territoriais, torna-se o epicentro de um embate entre capital e cultura, entre o direito à terra e os interesses especulativos, entre a tradição indígena e a modernização brutalista.

Em Anhangabaú, vencedor do prêmio de melhor documentário no Festival de Cinema de Gramado em 2023,o diretor Lufe Bollini constrói um filme que dá voz à população indígena e urbana, estruturando a narrativa em paralelo entre duas histórias: os Guarani Mbya, que enfrentam a iminência do apagamento de sua identidade no coração de concreto da cidade de São Paulo, e o prédio Ouvidor 63, uma ocupação artística ameaçada pelo mercado imobiliário. Durante o documentário, também acompanhamos protestos em defesa do Teatro Oficina, ícone da vanguarda teatral, uma das maiores e mais longevas companhias de teatro em atividade permanente no Brasil, que luta para manter seu território diante da falta de recursos. Esses personagens – reais e simbólicos – tornam Anhangabaú não apenas um documentário, mas uma carta aberta contra a gentrificação e o apagamento cultural na maior cidade do Brasil

Visualmente, o filme se destaca pelo trabalho de montagem, premiado no Festival da Fronteira, que alterna planos íntimos e poéticos com momentos de pura urgência política, trazendo dinamismo e tornando a produção cada vez mais envolvente. A estética é crua e visceral, apropriada para um registro que não quer apenas observar, mas convocar à ação. Há um equilíbrio entre a solenidade das falas e a irreverência das performances artísticas que ocupam os espaços ressignificados pela resistência.

Anhangabaú é um filme que reverbera, que pulsa junto com a cidade que se recusa a ser silenciada. Lufe Bollini, em vez de impor uma narrativa única, permite que as histórias coexistam e se entrelacem, dando voz àqueles que resistem e reimaginam os espaços urbanos.

Diretor Lufe Bollini (esq.) com a equipe de Anhangabaú, fazendo a apresentação do filme que foi exibido na terça-feira (13/05) na Cinemateca Capitólio, dentro da Mostra Cine Estalo da Bienal do Mercosul. Foto: Alisson Santos/CineNewsPoa.

Uma resposta para “Mostra Cine Estalo – Anhangabaú”

  1. […] entre 2014 e 2020, Anhangabaú é um filme de guerrilha, feito sem patrocínio, que costura três frentes de resistência urbana: a […]

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