Uma reflexão sobre infância, luto e espiritualidade
O Melhor Filme Brasileiro pela Crítica na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, A Natureza das Coisas Invisíveis, é um filme que, logo no início, já se torna interessante de acompanhar. Dirigido por Rafaela Camelo, em sua estreia em longa-metragem, a obra propõe uma experiência contemplativa e leve para o público.
O filme se divide basicamente em duas partes de 45 minutos cada: uma acontece quase inteiramente dentro de um hospital, e a outra em um ambiente rural. Duas meninas, Glória (Laura Brandão) e Sofia (Serena), ambas com dez anos, se conhecem nesse hospital durante as férias escolares e iniciam uma amizade dentro de um espaço que, geralmente, não é associado à felicidade — muito menos à diversão infantil.
Conforme a trama avança, imaginei que seguiria essa dinâmica de interação entre as meninas até o fim, com descobertas e o fortalecimento da amizade. No entanto, na segunda fase, ambientada no sítio, as meninas começam a aparecer menos, e o roteiro se aprofunda, voltando-se para o tempo da velhice, com personagens femininas que compartilham memórias, silêncios e saberes populares. Ao meu ver, a proposta foi traçar um arco entre o início e o fim da vida, costurado por afetos e experiências.
A diretora Rafaela Camelo evita explicações e prefere sugerir, deixando ao espectador a liberdade de interpretar e acreditar — ou não — na mística, nos ritos populares ou nos sonhos. Outro ponto positivo é a atuação das crianças: bem dirigidas por Rafaela, é possível notar a naturalidade das meninas em cena. Seus gestos e expressões não são forçados nem exagerados, o que é comum em filmes infantis, provavelmente algo orientado pelos diretores.
Na segunda metade do filme, centrada nas mulheres adultas e idosas, não consegui me conectar tanto. Às vezes, parece que há algo acontecendo entre as mães das meninas no final de uma parte e no início da outra, mas essa relação desaparece. A conexão entre as partes é mais simbólica do que narrativa, o que pode frustrar quem espera uma progressão mais clara ou emocionalmente impactante.
Na minha opinião, embora bem-intencionado, A Natureza das Coisas Invisíveis peca pela falta de conflito. A ausência de tensão dramática não é compensada por outros elementos sólidos, e tudo começa a ficar subjetivo. O resultado é um filme que encanta em momentos isolados, mas que não causa um impacto duradouro no espectador.











Deixe um comentário