O Que é Ser Normal?

Uma em Mil é um documentário gaúcho dirigido pelos irmãos de Guaíba, Jonatas e Tiago Rubert. O longa documental acompanha momentos da vida da família e levanta o questionamento: qual a diferença entre ter e não ter síndrome de Down? A partir dessa pergunta, Jonatas e Tiago vão além do diagnóstico médico, que ocorre em cerca de um em cada mil nascimentos. Por coincidência, isso aconteceu duas vezes na família deles: Tiago e seu tio Cléber têm a síndrome.

A cena inicial do filme mostra Jonatas e Tiago com filmadoras na mão, um apontando para o outro — aquelas filmadoras antigas, provavelmente JVC ou Sharp. Eles têm uma conversa cotidiana até que Jonatas pergunta algo que Tiago nunca tenha feito por ter Down. Ele pensa e diz: “trocar uma lâmpada”. Logo na sequência, a mãe dos irmãos aparece, e eles a questionam por nunca ter deixado Tiago trocar uma lâmpada. Ela responde com um sorriso que nunca houve necessidade disso, apenas. Um início de diálogo espontâneo que, de cara, me fez saber que eu ia gostar do filme.

Não dá para deixar de reparar no gosto da família por filmagem — algo não muito comum para uma família do interior. Provavelmente veio daí o interesse dos irmãos por cinema, já que, desde pequenos, os pais faziam registros familiares, incluindo um vídeo de Jonatas ainda criança segurando Tiago bebê nos braços, seguido de outros vídeos que acompanharam o crescimento de Tiago.

Conforme o filme avança, os diálogos também ganham profundidade. Os irmãos vão se conhecendo de uma forma diferente enquanto gravam. Jonatas questiona, e Tiago sempre tem respostas muito boas sobre sua condição. A certo ponto, Jonatas pergunta se Tiago gostaria de não ter Down, e Tiago dá uma resposta incrível, autêntica e impossível de não comover o espectador no cinema.

O filme mistura depoimentos, gravações familiares antigas e recentes, e provoca reflexões sobre inclusão, identidade e os limites da normalidade. O clímax, para mim, foi quando os irmãos reuniram a família para ver gravações antigas e falar sobre como é viver com Tiago e Cléber na família. Todos têm boas falas sobre o assunto.

O grande mérito de Uma em Mil está na capacidade de provocar sem confrontar. Ao perguntar “Existe alguma diferença entre ter ou não síndrome de Down?”, o filme não oferece respostas prontas, mas convida à reflexão.

Não vi nada de que eu não gostasse em Uma em Mil — um filme necessário e relevante para a sociedade atual. Desperta empatia e tem um final lindo. Que seja muito visto e celebrado pelo público.

Equipe do filme durante o debate após a exibição de Uma em Mil no Frapa 2025. Recebendo também diversos elogios de Jorge Furtado que mediou o debate. Crédito: Alisson Santos/CineNewsPoa.

Uma resposta para “XIII FRAPA – Uma em Mil”

  1. […] de Longas foram exclusivamente de diretores estreantes na direção de longas-metragens, incluindo Uma em Mil, A Natureza das Coisas Invisíveis, Cais e Nó. Nenhum deles deixou nada a desejar e todos foram […]

Deixe um comentário

Um espaço independente dedicado ao cinema e ao audiovisual, criado por mim, Alisson Santos, jornalista natural de Porto Alegre (RS).

O site nasceu com a proposta de acompanhar o cinema de perto, valorizando tanto as grandes produções quanto o cinema independente e as iniciativas que movimentam o audiovisual. Por aqui, você encontra críticas, entrevistas, reportagens e coberturas de festivais, sessões especiais, mostras e eventos cinematográficos, com atenção especial à cena cultural de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul.

Posts recentes

  • Resident Evil
  • Hokum: O Pesadelo da Bruxa
  • Obsessão
  • O Convite
  • GRENAL: o Maior Clássico das Américas
  • O fotógrafo que escondeu e salvou a história

Descubra mais sobre CineNewsPoa

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo