O projeto dos sonhos de Guillermo del Toro
As influências do terror gótico e do gênero fantástico permeiam a carreira de Guillermo del Toro desde que o cineasta mexicano surgiu no cenário cinematográfico. Seja no estiloso Blade II (2002), em A Colina Escarlate (2015) ou naquele que talvez seja seu melhor filme, O Labirinto do Fauno (2006), a marca autoral do diretor está sempre presente. O encontro de del Toro com o imortal romance de Mary Shelley, publicado em 1818, era algo aguardado há muito tempo. O cineasta sonha em fazer essa adaptação desde a infância, quando assistiu ao clássico Frankenstein (1931), dirigido por James Whale e estrelado por um dos maiores atores da história do cinema, Boris Karloff.
Esta releitura de del Toro honra a essência da obra original, não se tratando de terror puro e simples, mas de tragédia, romance e uma reflexão filosófica sobre o que significa ser humano. Confesso que, inicialmente, não era o estilo que eu esperava, mas ainda assim vale muito a pena.
Frankenstein, de del Toro, começa no Ártico, quando um barco cheio de marinheiros dinamarqueses fica preso no gelo e avista uma criatura e um homem perseguindo um ao outro. Os marinheiros acolhem o Dr. Victor Frankenstein (Oscar Isaac) e, pouco depois, a criatura que o persegue (Jacob Elordi) começa a dilacerar homens para chegar até ele. Quando a criatura se perde sob o gelo, Frankenstein decide contar sua história.
Como já é amplamente conhecido, Victor Frankenstein descobriu uma maneira de animar os mortos por um curto período por meio de impulsos elétricos. Com a ajuda de um investidor rico, Harlander (Christoph Waltz), e do irmão mais novo, William (Felix Kammerer), Victor tenta dar vida à sua própria criação. Unindo pedaços de corpos, ele consegue, mas logo percebe que o monstro não é a descoberta científica que imaginava, frustrando-se com sua incapacidade de falar e com a aparente falta de inteligência.
Se há um aspecto em que Guillermo del Toro acerta em cheio em todos os seus filmes é o visual e o estilo. Frankenstein é deslumbrante, com cenários gigantescos que despertam vontade de explorar, paisagens vastas e um trabalho impressionante de figurino e maquiagem. Não será surpresa se o filme for indicado (e levar) prêmios técnicos no Oscar.
A maior beneficiada, especialmente pelo figurino, é a personagem Elizabeth (Mia Goth), que desde o início surge deslumbrante. Porém, a personagem parece subaproveitada na trama, aparecendo em poucos momentos nos quais Mia se esforça para entregar uma boa interpretação dessa mulher de grande intelecto e curiosidade científica.
Desde suas primeiras aparições, a criatura demonstra uma vulnerabilidade comovente, encantando-se como um bebê com novas descobertas, como água ou folhas. Victor a mantém acorrentada em uma grande área de contenção, para a segurança tanto do criador quanto da criação. Quando Elizabeth o encontra ali, rapidamente se encanta com sua presença e tenta despertar a humanidade inata da criatura.
A grande tristeza da história reside na incompreensão entre “pai e filho”, um conflito levado às últimas consequências — incluindo momentos com diálogos de dilema existencial profundos.
Como ocorre com muitos projetos passionais de grandes diretores, é realmente gratificante ver Guillermo del Toro finalmente realizar o filme que desejava desde a juventude. O cuidado e a paixão do cineasta por essa história são evidentes e tornam o filme uma experiência intrigante, mesmo que o ritmo seja um pouco irregular em alguns momentos.











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