Um filme para terminar querendo assistir de novo

O diretor Yorgos Lanthimos é um cineasta da atualidade que, sem dúvida, quando lança um filme novo, quem é cinéfilo tem que parar para assistir. Lanthimos é grego e conhecido desde o início de sua carreira por um estilo cinematográfico único, marcado pelo surrealismo, humor ácido e críticas sociais incisivas. Seus filmes criam universos estranhos e perturbadores, onde as regras da sociedade são subvertidas e os personagens se comportam de forma enigmática e muitas vezes desconfortável.

Lanthimos mudou-se da Grécia para os Estados Unidos por volta de 2015, após o sucesso de O Lagosta (2015). A principal razão foi ampliar sua carreira no cinema internacional, já que Hollywood oferece maiores oportunidades de financiamento, distribuição e acesso a grandes elencos. Assim, ele encontrou sua maior parceira de trabalho até hoje, Emma Stone, que já foi protagonista em quatro de seus filmes, atingindo o ápice ao vencer o Oscar de Melhor Atriz por sua atuação em Pobres Criaturas (2023).

Diferentemente da maioria dos filmes de Lanthimos, nos quais ele também assina o roteiro, Bugonia é baseado na comédia sul-coreana Save the Green Planet (2003), que eu não assisti, mas conhecendo as características de Lanthimos tenho certeza de que ele não produziu apenas um remake padrão. No lugar de seus típicos personagens desajeitados e diálogos fora do comum, Lanthimos oferece aqui um estudo de personagem aprofundado com temas reflexivos de conspiração, manipulação e a natureza autodestrutiva da raça humana.

Na história, começamos acompanhando dois apicultores teóricos da conspiração: Teddy (Jesse Plemons), que é o líder da dupla, e Don (Aidan Delbis), seu primo. Eles sequestram a CEO de uma grande empresa da indústria farmacêutica, Michelle Fuller (Emma Stone), porque suspeitam que ela é secretamente uma alienígena planejando exterminar a raça humana. Apesar do brilho cômico que esse enredo parece ter, Lanthimos mostra uma visão mais profunda e instigante sobre o desejo inato da humanidade de ter alguém para culpar por seu próprio comportamento destrutivo.

É difícil falar sobre este filme sem querer destrinchá-lo inteiro. Bugonia tem basicamente quatro personagens: dois coadjuvantes, que são incríveis, e dois protagonistas, Michelle e Teddy. Nossos dois protagonistas são francamente malignos às vezes, o que também cria esse contraste hilário que me fez começar a gostar dos filmes de Lanthimos. Há um elemento quase pastelão na forma como certas cenas se desenrolam em Bugonia, justamente nos momentos em que deveriam ser extremamente sérios.

O filme me fez querer adivinhar do primeiro ao último segundo, constantemente puxando o tapete e revelando novas camadas dessa narrativa. No início dessa história absurda, eu tinha certeza do que estava vendo e em quem acreditar; depois, vai crescendo o pensamento do “e se?” até chegar a um ponto em que eu não tinha mais ideia de em quem podia acreditar ou “torcer”.

Enquanto a teoria absurda de Teddy e Don sobre alienígenas é sempre usada de forma engraçada, diversos subtextos pesados também são inseridos. Lanthimos espera até o último momento antes de fechar a cortina e revelar a verdade sobre a situação. Sempre há dúvida suficiente para o público suspeitar, permitindo que o espectador compartilhe das ilusões conspiratórias e que Teddy e Don possam estar certos — mas vamos combinar que é implausível a Terra estar dominada por alienígenas da galáxia de Andrômeda.

Bugonia vai fazer você rir, ficar inquieto e ofegar em igual medida, mas o filme sempre parece controlar quais dessas emoções quer que você sinta em cada momento.

Lanthimos convida o público a refletir sobre seu próprio papel e propósito neste planeta, usando essa história surpreendente e engraçada como catalisador para uma crítica social. Quando o filme termina, fica a reflexão e a vontade de assistir de novo, reparando em coisas novas e na atuação primorosa de Jesse Plemons e Emma Stone — desta vez sabendo a verdade.

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