Uma luz sobre a realidade invisível das mulheres encarceradas no Brasil
Olha pra Elas já não é um filme lançamento como os que eu normalmente escrevo aqui, mas sinto que vale a pena abrir uma exceção por se tratar de uma produção gaúcha que dá visibilidade a um assunto tão pouco discutido na sociedade: a desumanização da população carcerária.
Assisti ao documentário em uma sessão especial promovida pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (SINDJORS ), no dia 1º de junho, Dia da Imprensa, no CineBancários, com a presença dos realizadores Tatiana Sager e Renato Dornelles, além de diversos colegas jornalistas.
Em um país que possui uma das maiores populações carcerárias femininas do mundo, o documentário, gravado em penitenciárias femininas do Rio Grande do Sul, surge como um importante instrumento de reflexão sobre as múltiplas formas de exclusão enfrentadas por mulheres privadas de liberdade. Dirigido por Tatiana Sager e com roteiro de Renato Dornelles, o filme segue uma linha semelhante à da parceria anterior da dupla em Central (2017), documentário que retrata a realidade do Presídio Central de Porto Alegre.
Olha pra Elas acompanha o cotidiano de mulheres presas em seis unidades prisionais do Rio Grande do Sul, mas também vai além dos muros das penitenciárias para investigar questões estruturais que atravessam suas vidas, como a pobreza, a desigualdade de gênero, o abandono familiar e a maternidade no cárcere.
O documentário apresenta histórias reais de mulheres como Adelaide, Tatiane, Cátia, Naiane e Roselaine, revelando trajetórias marcadas pela vulnerabilidade social e pela dificuldade de reconstruir laços familiares. Entre os temas centrais está a realidade das mães encarceradas, muitas delas obrigadas a se separar dos filhos ainda nos primeiros meses de vida das crianças e que, a partir desse momento, passam meses, anos ou até mesmo o restante da vida sem qualquer informação sobre elas.
Ao discutir o sistema prisional feminino, Olha pra Elas evidencia um fenômeno frequentemente ignorado pelo debate público: a feminização da pobreza. A maioria das mulheres presas no Brasil é composta por pessoas negras ou pardas, com baixa escolaridade e em condições socioeconômicas precárias. O documentário argumenta que o encarceramento dessas mulheres provoca impactos que ultrapassam a esfera individual, afetando famílias inteiras e aprofundando ciclos de exclusão social.
A maioria dos crimes cometidos por essas mulheres está vinculada à necessidade de sustentar suas famílias. Muitas são chefes de família e responsáveis sozinhas pelo sustento dos filhos. O desespero acaba levando a atos infracionais. Acompanhamos casos de mulheres que roubaram comida para levar para casa ou traficaram drogas para conseguir pagar o aluguel.
Também há o fator da vulnerabilidade desde a infância. Em muitos casos, o contato com as drogas acontece muito cedo, levando essas mulheres a passarem a vida inteira sem uma estrutura familiar sólida, transitando entre casas de acolhimento e, após a maioridade, entre delegacias e prisões por pequenos delitos.
Além dos relatos das detentas, a produção reúne depoimentos de especialistas, entre eles juízes, promotores e pesquisadores, que analisam as particularidades do encarceramento feminino e os desafios para a reinserção social após o cumprimento da pena.
Renato Dornelles, que assina o roteiro e é um dos idealizadores do projeto, é um dos nomes mais importantes do jornalismo investigativo e do documentário social no Rio Grande do Sul. Jornalista, escritor, roteirista, produtor e cineasta, construiu sua carreira abordando temas ligados à segurança pública, ao sistema prisional, ao crime organizado e aos direitos humanos.
A parceria com a diretora e jornalista Tatiana Sager, além do já citado Central (2017), também inclui a série Retratos do Cárcere (2020), que atualmente está com uma nova temporada em produção.
Após a exibição, Renato Dornelles comentou sobre sua visão da sociedade e explicou por que passou a produzir conteúdos voltados à população carcerária:
Ao longo da minha carreira como repórter policial, percebi que muitos dos fenômenos da violência e do crime organizado não podiam ser compreendidos apenas observando o que acontecia nas ruas. Para mim, era necessário entender o que acontecia dentro das prisões e por que existia esse constante “bate e volta” das pessoas para a cadeia, muitas delas com mais de vinte passagens pelo sistema prisional. A sociedade prefere não olhar para a população carcerária, e isso contribui para a falta de compreensão sobre problemas como facções, reincidência criminal e políticas de segurança pública. Por isso, meu trabalho busca mostrar essa parcela da população que raramente é vista ou lembrada.
A diretora Tatiana Sager falou após a exibição sobre as diversas sessões do documentário que realizou com recursos próprios em todas as unidades prisionais femininas do Rio Grande do Sul:
Um dos meus acordos com o Governo do Estado para gravar nos presídios femininos era que, após o lançamento, eu pudesse exibir o filme em todas as penitenciárias femininas do Rio Grande do Sul. Nessas sessões, mulheres privadas de liberdade puderam assistir a histórias semelhantes às suas próprias, transformando o filme em uma ferramenta de debate sobre direitos humanos, dignidade e políticas públicas voltadas à população carcerária feminina e, é claro, mostrar que há, sim, gente olhando por elas.
Mais do que um retrato do sistema prisional, Olha pra Elas é um convite para enxergar mulheres que frequentemente permanecem invisíveis para a sociedade. Ao dar voz às suas histórias, o documentário questiona preconceitos, denuncia desigualdades e propõe uma reflexão sobre as consequências humanas do encarceramento feminino no Brasil contemporâneo.











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