Brilhante drama brasileiro de um agente secreto em fuga na década de 1970

O Agente Secreto se passa principalmente em 1977, “um período de grandes travessuras” no Brasil, de acordo com o texto de abertura. É também um período de ditadura militar, e possíveis conexões entre o regime e a corrupção corporativa, particularmente no campo da energia, são apenas um dos temas do filme. A cena de abertura se passa em um posto de gasolina. Nosso protagonista (Wagner Moura) entra e percebe que há um cadáver por perto. Aparentemente, o homem morto foi baleado enquanto tentava roubar petróleo. Mas a polícia está ocupada com o carnaval e ainda não conseguiu remover o cadáver. Já se passaram alguns dias. Alguns policiais rodoviários chegam ao posto e incomodam o personagem de Moura até que um deles peça um suborno disfarçado de “caixinha”, mas acaba levando apenas alguns cigarros. Eles saem ignorando o corpo morto.

O personagem de Wagner Moura, às vezes chamado de Marcelo, outras vezes de Armando, passará o filme em Recife, cidade natal de Mendonça Filho, onde se passa a história da maioria de seus filmes. A esposa do protagonista está morta, mas ele tem um filho lá, além de um sogro que trabalha como projecionista em um cinema local.

Focada, mas extensa, a primeira produção de época do diretor está absolutamente repleta de música, cores vivas e muito estilo, desenterrando mais uma vez esse capítulo trágico da história do país, quando a ditadura militar, que começou em 1964, usava um boom econômico chamado “Milagre Econômico Brasileiro” como cortina de fumaça para prender, torturar e matar todos os tipos de dissidentes e indesejáveis.

Como já é sabido por quem conhece o cinema de Kleber Mendonça Filho, seus filmes são uma bomba-relógio: começam com o público acompanhando os personagens sem saber exatamente o que está acontecendo, e a trama vai sendo entregue aos poucos até explodir em um momento de tensão.

Ao reter informações e apenas gradualmente nos permitir preencher lacunas, o roteiro de Mendonça Filho opera em uma chave misteriosa. Mas, uma vez que as pistas são finalmente reveladas e o quebra-cabeça de O Agente Secreto é montado, o filme se torna cada vez mais incendiário. Há uma urgência dolorosa em sua narrativa — história que nós, brasileiros, conhecemos bem (ou não) — mas isso coexiste com desvios estranhos: os mesmos floreios que o diretor colocou em Bacurau (2019). Um gato de duas caras cumprimenta Armando em sua chegada à cidade. Uma perna — provavelmente o membro de outra vítima do regime — é encontrada dentro da barriga de um tubarão e ganha vida própria, pulando por Recife em uma subtrama diferente que aproxima o filme de um caso horrível de filme B.

Meu principal desagrado fica por conta do som, principalmente na grande cena inicial, onde algumas falas estavam inaudíveis para mim — e sou muito bom de audição. Em diversos momentos do filme, o som parecia grave demais e reverberava por um segundo, tornando algumas falas dos personagens inaudíveis. Talvez tenha sido apenas a experiência na sala de cinema em

Estamos muito longe da abordagem mais imponente e clássica de Ainda Estou Aqui (2024), de Walter Salles — uma obra que só é útil como comparação porque chegou onde O Agente Secreto pretende chegar e também se concentra no domínio canceroso da ditadura sobre o país. O olhar de Mendonça Filho é muito mais receptivo ao surreal, e sua cinefilia acaba moldando o estilo do filme, repleto de referências e fotografado pela russa Evgenia Alexandrova em lentes Panavision, dando uma textura linda de ver no cinema e repleto de edições vintage.

Em sua crença inabalável como diretor na capacidade do cinema de inquietar e hipnotizar as pessoas, Kleber Mendonça Filho, com O Agente Secreto, exuma o passado como base para uma história puramente fictícia e, ao fazê-lo, articula como a ficção pode ser ainda mais valiosa como veículo para a verdade do que como ferramenta para encobri-la.

Kleber Mendonça Filho acompanhado da produtora Emilie Lesclaux e da atriz Alice Carvalho apresentando O Agente Secreto para o público na Cinemateca Capitólio, na segunda-feira (03/11). Crédito: Alisson Santos/CineNewsPoa.

3 respostas para “XIII FRAPA – O Agente Secreto”.

  1. Avatar de Capital gaúcha viveu dias de cinema e inspiração com o FRAPA 2025 – CineNewsPoa

    […] dos momentos mais aguardados foi a estreia gratuita de O Agente Secreto, filme escolhido para representar o Brasil no Oscar de 2026. As duas sessões especiais, realizadas […]

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  2. Avatar de Critics Choice Awards 2026 – CineNewsPoa

    […] para Paul Thomas Anderson, mas Pecadores foi o grande premiado, com 4 troféus. O brasileiro O Agente Secreto também foi premiado, como Melhor Filme […]

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Meu nome é Alisson Santos. Sou natural de Porto Alegre (RS) e nasci em 1996. Jornalista buscando se especializar em críticas de cinema. Neste blog, realizo coberturas de forma independente e compartilho conteúdo informativo sobre filmes, incluindo críticas, entrevistas, cobertura de eventos e outros destaques e informações sobre cinema.

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