Um autorretrato sem autorreflexão
Na série documental de duas partes e três horas, aka Charlie Sheen, dirigida por Andrew Renzi, Sheen se senta em uma cabine de lanchonete e é surpreendentemente honesto sobre sua vida tumultuada e marcada pelos tablóides americanos. A entrevista investigativa de Renzi com Sheen é a peça central da série, mas o diretor também conversa com várias pessoas importantes na trajetória do ator. Entre os entrevistados estão os amigos de infância Sean Penn e Tony Todd, o irmão mais velho Ramon Estevez, o parceiro de estrelato em seu maior sucesso, Jon Cryer, e diversos outros rostos conhecidos de Hollywood nos anos 1990 e 2000.
Entre aqueles que não aceitaram participar estão três dos cinco filhos de Sheen, seu pai — o grande ator Martin Sheen — e seu irmão Emilio Estevez. Charlie reconhece que é completamente compreensível que eles não quisessem relembrar tantos episódios dolorosos de sua vida e, considerando o quanto Martin Sheen esteve ativo nas tentativas de recuperar o filho em mais de uma ocasião, isso faz sentido.
A primeira parte cobre a infância de Sheen em Malibu, onde ele era Carlos “Charlie” Estevez. Ele fazia curtas-metragens com seu irmão Emilio e outros amigos, como Sean Penn, George Clooney e muitos outros. Martin Sheen levava os filhos aos sets dos filmes em que trabalhava, incluindo o controverso set do clássico Apocalypse Now (1979), filmado nas Filipinas quando Charlie tinha apenas 11 anos.
Em seguida, o documentário aborda as duas primeiras das três fases que Sheen usa para descrever sua vida: “Partying”, “Partying With Problems” e “Just Problems”. Ele festejou intensamente com pessoas como Nicolas Cage durante os anos 1980 e 1990, mas continuou recebendo grandes oportunidades, como o papel pequeno — porém fundamental — em Curtindo a Vida Adoidado (1986) e o papel principal em Platoon (1986), vencedor do Oscar de Melhor Filme em 1987. A primeira parte termina com sua chance pós-reabilitação (uma de várias) de assumir o lugar de Michael J. Fox em Spin City, e vai até sua conquista do papel de Charlie Harper em Two and a Half Men, o maior sucesso de sua carreira.
A Parte 2 aborda esse enorme sucesso da sitcom, seus casamentos conturbados com Denise Richards e Brooke Mueller, e como tudo começou a desmoronar em 2009, quando ele passou a fumar crack. Isso acabou levando a brigas com Chuck Lorre, criador de Two and a Half Men, resultando na demissão de Sheen e em aparições caóticas na mídia, além de uma turnê de stand-up em que ele falava de forma delirante sobre “Winning” e como tinha “sangue de tigre” — um momento de sua vida que, hoje, ele mal reconhece.
Conforme o tempo passava e eu via Sheen falar, comecei a questionar qual era o propósito da produção. Seria uma manifestação da recuperação de Sheen ou a última fase de seu vício? Em outras palavras, o diretor Andrew Renzi está contribuindo para a saúde de Sheen ou apenas documentando sua doença? Essa história importa?
O que me incomoda é que Charlie não parece se arrepender de tudo o que fez — do pai ausente que foi, das esposas que agrediu. Não que ele deva chorar e se lamentar, mas a narrativa do documentário deveria se encaminhar para um arco de redenção, mostrar como Charlie vive hoje, como é estar sóbrio — e isso é tratado de forma muito superficial. Na minha visão, Charlie fala sobre sua vida com mais saudosismo do que com remorso.
Dito de outra forma, Charlie Sheen muitas vezes perdeu o fio do ator talentoso que foi e, aka Charlie Sheen, também perde a noção dessa realidade, em detrimento de um documentário em linha temporal. Sheen é um ator icônico que era viciado em drogas ou um viciado em drogas icônico que começou como ator? Parece, especialmente em sua segunda metade, que aka Charlie Sheen está fixado na segunda opção — a ponto de ser interessante ouvir as histórias, mas nada além disso. O documentário não é explorador, mas seu mérito (ou a falta dele) pode ser mais evidente em cinco ou dez anos — quando vermos onde ele se encaixa no arco da vida de Sheen — do que após três horas de exibição.











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