Mistério, tensão e segredos
Em premiere mundial no Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre (Fantaspoa), o suspense psicológico brasileiro Covil, de Rodrigo Lages, abrilhantou a reta final do festival com duas sessões comentadas na Cinemateca Paulo Amorim.
O longa Covil surge dentro de um momento interessante do terror nacional, em que produções mais intimistas têm ganhado espaço ao apostar menos em sustos fáceis e mais na construção de atmosfera. É o que demonstra a edição de 2026 do Fantaspoa, na qual três estreias brasileiras se passam em grandes casarões: Herança de Narcisa, Virtuosas e Covil, cada um com uma temática completamente diferente.
A história de Covil acompanha Olivia (Juliana Lourenção), que herda uma casa marcada por conflitos familiares e decide começar uma nova fase de sua vida ali. Ao se mudar com o marido, Pedro (Daniel Rocha), o casal descobre algo perturbador: um cômodo trancado e uma moradora muito estranha e misteriosa chamada Clara (Vitória Strada).
A ambientação e a atmosfera são o grande trunfo do diretor para driblar o baixo orçamento, construindo um ambiente tenso por meio dos diálogos e de enquadramentos claustrofóbicos, com planos fechados nos rostos dos atores durante boa parte do tempo. A casa funciona como um terceiro personagem, centro dos cinco capítulos em que o filme é dividido, operando como um labirinto emocional onde passado e presente se entrelaçam, cercados de mistério.
No campo das atuações, Vitória Strada é o nome mais conhecido e entrega um ótimo desempenho, mas, para mim, o elo que sustenta a narrativa é Olivia. Juliana Lourenção constrói uma interpretação emotiva e progressivamente tensa, transmitindo com precisão o desgaste psicológico da personagem ao longo do filme.
O diretor Rodrigo Lages comentou, durante o debate após a sessão do dia 23 de abril, sobre a construção do roteiro e os bastidores da produção:
“Eu fui encontrando o tema do filme enquanto escrevia o roteiro, a questão das perspectivas do que é uma família, dos traumas, dos horrores. Esse roteiro foi sendo concebido muito em função da locação: a casa era de um dos produtores do filme, que tinha acabado de se mudar. Eu a visitei e vi um filme morando ali. Nós, claro, modificamos todo o espaço para parecer mais antigo e sujo, e fui encontrando simbologias que dialogam com os personagens — lugares para espelhos, espreguiçadeiras, coisas assim”, comentou o diretor após a exibição.
Covil se insere em uma vertente contemporânea do cinema de gênero brasileiro que busca menos o susto imediato e mais a construção de uma experiência sensorial. Embora, para alguns, possa parecer um pouco lento, o filme apresenta momentos fortes e um roteiro que vai e volta no tempo de forma bem controlada e com surpresas. O resultado é uma obra que reafirma a vitalidade e a diversidade do horror nacional recente.
Segundo o diretor, Covil tem previsão de estreia no Globoplay dia 20 de maio.












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