Quando o passado assombra mais que o sobrenatural
Herança de Narcisa é um terror psicológico brasileiro dirigido por Clarissa Appelt e Daniel Dias. A história acompanha Ana (Paolla Oliveira), uma mulher que retorna ao antigo casarão da família após a morte da mãe, Narcisa, uma ex-vedete marcada por uma personalidade forte e controversa. O que começa como uma simples tentativa de organizar a venda da casa logo se transforma em uma experiência estranha, à medida que Ana se depara com vestígios do passado e memórias que parecem ganhar vida dentro daquele espaço. A casa deixa de ser apenas um cenário e passa a funcionar como uma espécie de extensão psicológica da protagonista, onde traumas, ressentimentos e heranças emocionais se manifestam de forma cada vez mais perturbadora.
O filme é inteiro de Paolla Oliveira, sozinha em cena durante boa parte do tempo, e ela segura bem a atenção do público com uma atuação boa o suficiente, mas não espetacular. O segundo protagonista é a casa, misteriosa e imponente, um cenário que dá vontade de explorar e ver mais.
Apesar de o início indicar um roteiro comum no gênero, Herança de Narcisa se distancia do terror convencional baseado em jumpscares e aposta em uma atmosfera densa, construída lentamente, em que o desconforto vem mais da sugestão — do que não está na tela, da presença da mãe — do que de eventos explícitos. Há um jogo constante entre o que pode ser interpretado como sobrenatural e o que pode ser fruto da mente de Ana. Na verdade, essa abordagem não chega a ser tão fora do terror convencional, pois, ultimamente, o terror psicológico vem trabalhando muito essa questão, em que o verdadeiro horror está ligado às relações familiares e às marcas deixadas pelo passado.
Fico com a impressão de que o filme funciona melhor como um drama psicológico do que como um terror propriamente dito. Não me assustei em nenhum momento, mas fui ficando angustiado conforme a situação evoluía e pensando em como ela iria terminar.
A história é livremente inspirada na vida da mãe da diretora Clarissa Appelt, a quem ela dedica o filme nos créditos finais. Clarissa assistiu à sessão junto com os espectadores que lotaram a sala da Cinemateca Paulo Amorim, sentada bem na frente, e não pude deixar de notar seu envolvimento com a história, mesmo já tendo assistido ao próprio filme diversas vezes. Ela estava inclinada para frente, com os cotovelos apoiados nos joelhos, completamente imersa. Imagino o quanto isso deve ser marcante.
“Escrevi esse filme praticamente em um ritual para ressignificar as questões familiares que eu tinha. Eu estava tentando entender a minha mãe, a minha avó. A Ana tem muito dessa herança — não só de bens materiais, mas do pessoal da mãe que partiu. Assim como no filme, na vida real, por trás dessas heranças existe uma falta, uma ferida, e, quando começamos a revisitar, também começamos a entender nossos próprios pais”, comentou a diretora Clarissa Appelt após a sessão.
Herança de Narcisa é um filme que depende da disposição do espectador em entrar no clima e aceitar suas incertezas. Para quem aprecia histórias que exploram emoções, memória e conflitos familiares de forma mais abstrata, ele pode ser bastante envolvente; já para quem espera um terror mais direto e convencional, a experiência pode parecer frustrante.












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