O medo como experiência sensorial

O cinema de gênero tem mostrado, nos últimos anos, uma transformação em que, cada vez mais, o terror deixa de depender de grandes orçamentos e efeitos para se apoiar em atmosfera, território e identidade cultural. Posso citar uma lista enorme de filmes de terror que superam a falta de orçamento com qualidade e criatividade. É nesse movimento que se insere o filme russo A Cerca, dirigido por Dmitry Davydov, mais um bom título da mostra Low Budget, Great Films do Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre (Fantaspoa) que, embora pequeno em escala, carrega ambições estéticas e simbólicas bastante evidentes.

Ambientado em uma região de florestas da Rússia, o longa se constrói a partir de uma premissa simples — um pai e sua filha vivem isolados na floresta, em um tempo não muito distante do atual, já que as roupas e a tinta no cabelo indicam um contexto recente. O pai se surpreende ao descobrir que sua filha matou um animal inesperado para o jantar, o que dá início a uma série de complicações para os dois.

O filme não apresenta uma grande narrativa de terror com desenvolvimento tradicional de personagens, mortes em série ou redenções de caráter, como é comum no mainstream do gênero. O diretor Davydov busca criar uma experiência sensorial, quase hipnótica, em que o silêncio, a paisagem e o estranhamento ocupam mais espaço do que a progressão dramática. A Cerca consegue construir uma ótima atmosfera e tem bons momentos, mas, do meio para o final, começa a se tornar um pouco repetitivo e a parecer vazio em termos de história. Talvez eu tenha me sentido distante por não compreender melhor a cultura local e suas lendas, perdendo assim alguns significados.

A narrativa parece fragmentada, por vezes indecisa sobre o que quer comunicar. Outro ponto curioso é o fato de o filme ser falado em inglês, apesar de ser russo. Imagino que tenha sido uma decisão visando uma melhor distribuição internacional, mas isso deixa evidente que os atores estão falando uma língua que não é a sua nativa; em alguns momentos, soa pouco natural, como se estivessem apenas reproduzindo falas decoradas.

Ainda assim, reduzir o filme às suas falhas seria ignorar o que ele representa. A Cerca é um exemplo de que produções de baixo orçamento podem ter qualidade e provocar fortes emoções na sala de cinema. É, sem dúvida, um filme interessante, que propõe uma experiência e aponta para um caminho possível dentro do cinema contemporâneo de gênero: aquele em que o medo nasce menos do que se vê e mais do que se sente.

O filme terá mais uma exibição dentro do Fantaspoa, no CineBancários, na quinta-feira (16/04), às 17h.

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Meu nome é Alisson Santos, natural de Porto Alegre (RS). Sou jornalista em busca de especialização em crítica de cinema. Neste blog, realizo coberturas de forma independente e compartilho conteúdo informativo sobre filmes, incluindo críticas, entrevistas, cobertura de eventos e outros destaques e informações sobre o universo cinematográfico.

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