Manipulação e paranoia em um terror bem atual

Apofeníacos são aqueles que apresentam a tendência de perceber padrões, conexões ou significados em eventos aleatórios, interpretando coincidências como se fossem intencionais ou carregadas de sentido oculto. Esse comportamento está ligado à Apofenia, um fenômeno natural da mente humana que busca organizar o mundo ao seu redor, mas que, quando exagerado, pode levar a interpretações distorcidas da realidade.

É com essa explicação que começa o filme escrito e dirigido pelo americano Chris Marrs Piliero, conhecido principalmente por dirigir videoclipes de grandes artistas do pop e do rock, como The Black Keys, Britney Spears e Ariana Grande, além de trabalhar com cinema independente. Piliero esteve presencialmente em Porto Alegre para realizar a première latino-americana de seu novo filme no Fantaspoa, em sessão lotada na Cinemateca Capitólio.

Na história, Duke (Aaron Holliday) é um nerd da tecnologia obcecado por criar vídeos deepfake para sacanear quem o prejudica ou não faz o que ele quer. O filme é, essencialmente, um olhar sobre as consequências potencialmente mortais de suas ações egoístas, embora apresentado sob uma perspectiva distorcida que mantém o público em suspense até o final. Deepfakes, em termos simples, são vídeos que mostram uma pessoa cujo rosto ou corpo foram alterados com inteligência artificial, fazendo com que ela pareça ser outra pessoa ou diga coisas falsas.

A primeira metade do filme insinua a existência dessas manipulações digitais e seu poder destrutivo, mas é somente no segundo ato que a narrativa realmente engata, explorando os horrores dessa tecnologia e cruzando os caminhos de diferentes personagens que passam pela vida de Duke, incluindo Sean Gunn, que aqui interpreta Clinto Binto, um artista que ousa dizer não a Duke.

Após a sessão, o diretor Chris Marrs Piliero comentou sobre o processo de escrita do roteiro e sobre as deepfakes na internet:

“A primeira deepfake que eu vi foi em 2018. Era de uma qualidade muito ruim, nada próximo do que temos hoje. Eu achei engraçado, mas ao mesmo tempo muito assustador — a ideia de como é fácil enganar e manipular nossas crenças. Então, a forma como eu quis contar essa história foi mostrando como pequenas aplicações dessa tecnologia podem se infiltrar nas nossas vidas e nos manipular”, comentou o diretor Piliero.

Apofeníacos apresenta algumas cenas repugnantes, momentos de humor e um mini-slasher surpreendente, ao estilo Tarantino, no terceiro ato, além de exemplos de como é fácil arruinar a vida de alguém nos dias atuais. Para mim, já está entre os melhores filmes que vi nesta edição do Fantaspoa e, com certeza, merece bastante visibilidade quando estrear nos cinemas ou chegar ao streaming.

Diretor Chris Marrs Piliero (dir.) durante a sessão comentada na Cinemateca Capitólio na sexta-feira (17/04). Crédito: Alisson Santos/CineNewsPoa.

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Meu nome é Alisson Santos, natural de Porto Alegre (RS). Sou jornalista em busca de especialização em crítica de cinema. Neste blog, realizo coberturas de forma independente e compartilho conteúdo informativo sobre filmes, incluindo críticas, entrevistas, cobertura de eventos e outros destaques e informações sobre o universo cinematográfico.

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