Terror experimental na floresta australiana
Dead Eyes chega ao Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre (Fantaspoa) para sua première latino-americana. Anteriormente, o filme australiano do diretor Richard E. Williams havia passado apenas pelo prestigiado South by Southwest (SXSW), que acontece em Austin (EUA). Dead Eyes é um projeto ambicioso e bastante original, realizado inteiramente em primeira pessoa, entrelaçando imagens assustadoras e temas de terror psicológico.
A história acompanha Sean (Rijen Laine) e sua noiva, Grace (Ana Thu Nguyen), que se aventuram, junto com um casal de amigos, em uma área florestal remota em busca do pai desaparecido de Sean. Anos antes, Paul (Stephen Phillips) sumiu após a morte de sua filha caçula. Quando Sean chega ao local, começa a reviver traumas antigos e conflitos familiares por meio de visões assustadoras. O que começa como uma busca tensa logo se transforma em algo muito mais estranho.
As visões de Sean também incluem Lilly, sua irmã falecida, que por vezes aparece morta e, em outras, como se estivesse viva novamente. Lilly é interpretada por Mischa Heywood, recentemente vista no terror Faça Ela Voltar (2025), mas aqui com mais tempo de tela e de forma convincentemente assustadora.
Tudo isso é apresentado em primeira pessoa, combinado com uma estrutura de pesadelo psicodélico provocado por cogumelos alucinógenos, sugerindo que Sean e seus companheiros podem ser narradores não confiáveis. Porém, não fica claro como esse recurso funciona dentro da lógica da história, e o filme nunca ajuda o público a entender por que ele está ali ou o que representa — parece mais uma escolha estética do que narrativa. Particularmente, acho que a história funcionaria melhor em uma filmagem tradicional, já que até foi utilizado um ator profissional para carregar a câmera que representa a visão do protagonista.
Ainda assim, vale destacar que Richard E. Williams claramente buscou fazer algo diferente, e seu roteiro apresenta várias ideias interessantes. Considero um filme bem escrito. A história aborda temas como trauma infantil, memória fragmentada, doença mental e os danos cíclicos causados por dinâmicas familiares abusivas. São ideias ricas no papel, mas que acabam ficando dispersas na execução, introduzidas sem serem plenamente desenvolvidas.
Após a exibição na Cinemateca Capitólio, o diretor Richard E. Williams participou de um debate com o público e comentou sobre os bastidores das filmagens:
“Fazer esse filme foi muito desafiador. Desde o início, eu queria gravar dessa maneira, fazer um terror diferente. Exigiu muita adaptação, pois precisamos criar um equipamento acoplado às costas do ator para filmar, e sempre tínhamos que esconder o resto da equipe atrás dele. Isso exigiu um set dinâmico, em que todos podiam se movimentar sem carregar muitas coisas e acompanhar nosso ‘ator-câmera’. Foi uma experiência diferente para todos nós”, comentou o diretor após a sessão.
Dead Eyes claramente tenta ir além das fórmulas convencionais do terror — menos dos jumpscares que ele usa e abusa do início ao fim. O filme demonstra um desejo genuíno de explorar imagens incomuns e temas ambiciosos, e esse impulso criativo merece reconhecimento. Para quem aprecia o gênero e gosta de muitos sustos, sem dúvida é um filme que vale a pena conferir.












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